
A odisseia da Argentina pela animação teve o seu ponto de partida em 1917, naquele que também ficou reconhecido para muitos dos historiadores como o primeiro filme animado da História do Cinema, El Apóstol. Dirigido por Quirino Cristiani, El Apóstol servia como uma sátira politica direcionada ao então presidente da Argentina, Hipólito Yrigoyen, que era apresentado como uma caricatura, um vilão que “incendiava” a capital de Buenos Aires com raios de Júpiter. Atualmente o filme encontra-se integralmente perdido na consequência de um incêndio em 1926 e apenas algumas imagens resistiram à fúria das chamas.
Quase um século depois, a Argentina, o berço do cinema animado torna-se num “copycat” em termos de estilo gráfico e até mesmo no formato narrativo com Metegol (Matraquilhos). Contando com direção do galardoado Juan José Campanella (O Segredo dos Seus Olhos), esta é uma animação capaz de rivalizar em muitos parâmetros industriais com os grandes estúdios norte americanos, e até superar alguns em sequências gráficas arrebatadoras, simbióticas com a tecnologia 3D (contudo em Portugal apenas estreará a versão 2D).
O enredo, baseado numa pequena história de Roberto Fontanarrosa, remete-nos a Amadeo que na versão internacional conta com a voz de Rupert Grint, o Ron Weasley de Harry Potter), um jovem corajoso e tímido que terá que salvar a namorada e a sua pequena cidade dos planos megalómanos de um craque de futebol, El Grosso. Para isso contará com a ajuda de um grupo de bonecos de matraquilhos (a paixão de Amadeo), personalizados e sempre fieis aos seus ideais. Ou seja, não existe nada de extraordinário em termos de intriga nem narrativa, tudo se resume a um modelo mainstream, nada irreverente e dignamente norte americano, agradável para os mais novos como também para os graúdos que os acompanham.
Mas Matraquilhos tem os seus momentos. Momentos esses que o tornam ocasionalmente indicador de uma veia cinéfila (muito por culpa de Juan José Campanella), entre os quais a “louca” referência a 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, logo na abertura. Entretenimento passageiro ditado por um visual deslumbrante e bem trabalhado, pena só não possuir uma aguçada satirização ao mundo do Futebol, já que fazer o mesmo que El Apóstol fez está fora de questão para uma animação dirigida ao grande público.
O Melhor – A animação gráfica, o prólogo à la 2001: Odisseia no Espaço
O Pior – Nada de verdadeiramente especial nem ousado.

Hugo Gomes

