
A biografia cinematográfica chegou a um ponto que podemos apelidar de poço vazio artístico e criativo, onde todo este subgénero é reduzido aos adereços esquemáticos e alugares-comuns que por coincidência parecem unir as mais diferentes personalidades apresentadas no cinema. Com a ausência de novas formas narrativas de expor a vida real, eis que surge Grace de Mónaco, o que supostamente seria a abordagem de uma estrela de cinema de Hollywood que troca o mundo do espectáculo pelo amor e pela realeza do Mónaco, é convertido não num relato de veracidade mas num verdadeiro “conto de fadas” no sentido mais impuro da palavra.
Assim sendo, a “musa” de Alfred Hitchcock, Grace Kelly (interpretada com mais glamour que esforço por Nicole Kidman), é a figura central da nova biografia de Olivier Dahan, que alguns anos atrás auxiliou Marion Cottilard a vencer o Oscar com o seu desempenho como Edith Piaf em La Vie en Rose. Dahan é realizador capaz de exercer alguma energia a nível técnico e conceptual à obra, encontrando-se a sua maior fraqueza no enredo, nos seus constantes “abraços” à manipulação hollywoodesca e na inocuidade das suas personagens.
Aqui, Grace Kelly é uma farsante, algo que se poderia aproveitar ao nível existencial, mas tudo é utilizado dando ênfase o lado cómico e cinico da trama. Nela residem todos os “bons valores” norte-americanos. Valores, esses que auferem um tom de choque cultural para com o reino do Mónaco e, claro, em certas ocasiões uma soberania da entidade americana face aos europeus (as acusações da Europa ser palco do fascismo e discriminação é servido como uma ofensa).
A juntar a isto é todo um stock inesgotável de esquematizações e até traços de comédia juvenil. Grace de Monaco é uma história inverosímil, com Hollywood a reduzir potencial em mera capa de glamour e pretensões ao Oscar, onde o amor é prioritário mas onde Kidman possui mais química com o padre da corte (Frank Langella) que propriamente com o seu “príncipe encantado” (Tim Roth).
Por fim, em consequência das críticas e desprezo geral dos príncipes do Monaco, face à imagem retratada da sua mãe e à falsificação de factos verídicos, a fita de Olivier Dahan dá-se por vencida e expõe logo de início a frase – “Uma história ficcional baseada em factos verídicos” – agora expliquem-me como se consegue levar a sério uma biografia destas?
O melhor – a direção de Olivier Dahan
O Pior – produto cheio de brilho, mas não próprio, reduzindo factos verídicos a contos de fadas “made in Hollywood”.

Hugo Gomes

