«The Double» (O Duplo) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Conhecem a teoria da caixa negra? Supostamente cada individuo possui três identidades todas elas diferentes uma das outras, a primeira é a pessoa que julgamos ser, a segunda aquele que desejamos ser e, por fim, a terceira é a que realmente somos. O Duplo de Richard Ayoade (depois de “viajar” no Submarino) é uma inquirição desses mesmos três seres, respetivamente integrando os diferentes atos da narrativa.

A história de O Duplo leva-nos a um mundo que não conseguimos identificar, obsoleto na sua tecnologia, decadente e renegado pela luz do dia. Nesse cenário quase transgénico da antiga ficção-cientifica russa seguimos Simon James (Jesse Einsenberg), talvez o individuo mais infortunado de sempre, marginalizado pelos outros, até pela sua própria mãe, que a cada visita do filho tem a “amabilidade” de expressar a sua vergonha em relação a este, e o constante conselho dos “desconhecidos” de que o suicídio é o melhor remédio para a sua infeliz existência. Para piorar o seu quotidiano insuportável, um novo trabalhador chega à empresa de Simon James, sendo acarinhado e elogiado, um modelo a seguir s. Contudo, este James Simon é uma cópia exata do nosso protagonista, mas só este consegue perceber a semelhança.

Baseado num livro de Fyodor Dostoevsky, eis uma peça que remete nos às crises existenciais e individuais, mas exposto numa ficção metafórica que nas mãos do realizador se torna num filme altamente estilizado e “embrulhado” sob uma atmosfera envolvente e desesperante. O Duplo é um cuidado exercício de estilo que revigora o seu existencialismo quase panfletário através das suas imagens embebidas numa melancolia que parece contagiar até os próprios atores. Jesse Eisenberg, a “metralhadora” oratória, parece enquadrar-se perfeitamente nesses “bonecos” vazios que o cenário distópico incute, mas ainda mais na dualidade, a grande anomalia das anomalias, o catalisador de toda a trama, quer física ou psicológica. Em complemento, Mia Wasikowska é a “princesa” do gótico e da melancolia falseada.

Existe nesta adaptação um cruzar de referências desde Lynch a Tarkovski, Proyas a Gilliam, tudo compondo uma partitura cinematográfica na qual é possível identificar contornos da literatura kafkiana, presenciando uma certa veia de Metamorfose. Ou seja, embora a sua estética não apresente tais qualidades, O Duplo converte-se num filme emocionante com todos os requisitos dignos da Sétima Arte e um exercício existencial com as personagens à mercê da dissecação. Por fim, há que perguntar – será que nos conhecemos realmente?

Uma proposta cativante de cinema!

O Melhor – Um exercício de estética e existencialismo
O Pior – Passar despercebido


Hugo Gomes

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