«Belleville Baby» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Orfeu amava tanto Eurídice que, quando esta morreu no dia do casamento entre os dois, entrou e atravessou o mundo dos mortos e propôs a Hades que a deixasse levar de novo para o dos vivos. Hades concordou, mas com a condição de que não podia olhar para ela enquanto não tivessem abandonado o seu reino. Quando estavam quase a chegar à saída, a dúvida consumiu Orfeu ao ponto deste olhar para trás para confirmar que Eurídice o seguia e, nesse momento, perdeu-a para sempre. “Belleville Baby” de Mia Engberg pega no mito já tão explorado de Orfeu e dá-lhe uma nova leitura questionando-se se Orfeu quereria mesmo salvar Eurídice ou se Eurídice queria mesmo ser salva.

Um presidiário sai da cadeia onde esteve vários anos e liga à mulher com quem tinha tido uma relação antes de ser preso e que desconhecia por completo o seu paradeiro ou destino. Este é o ponto de partida para um ensaio fílmico sobre o amor, identidade, classe e, claro, a memória. E é de memórias que se vai construindo o filme. Sempre sobre os telefonemas entre os dois, em que se vão lembrando ou pedindo ao outro que conte as memórias da sua relação, depois de tantos anos. Com o tempo, a vontade de se encontrarem é um ponto de fricção, mas eventualmente combinam fazê-lo. Chegado o momento, será que o querem mesmo?

Como as memórias que partilham, as imagens também não são sempre claras, com muitas técnicas misturadas, desde super-8 a telemóvel, passando por imagens de arquivo públicas e privadas, mas, com o passar do tempo e a solidez do texto que acompanham, qualquer dúvida que pudesse ter surgido nos primeiros minutos se dissipa. Outro ponto a salientar é a banda sonora, tanto a original de Michael Wenzer, como as músicas usadas.

Belleville Baby é um fime que consegue ser emotivo sem ser melodramático. As experiências partilhadas são comuns à maioria das pessoas que o virem (se não mesmo a todas). Apesar da sensibilidade dos temas, não há nenhum esforço de reduzi-los ou simplificá-los, com a presença da História e dos contextos sociais das personagens sempre a surgirem e a complicarem o que poderia ser tomado por algo mais linear. É esse mesmo o grande triunfo de Mia Engberg: conseguir construir uma história verdadeira, sem atalhos ou cortes, trazendo para uma relação toda a complexidade da vida humana e ainda consegui-lo fazer de uma forma que nos emociona e nos toca.

O Melhor: A emoção; a recusa de simplificar.
O Pior: De início custa perceber o que é feito com as imagens, o que pode afastar algumas pessoas.


João Miranda

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