
Quand je serais dictateur é um filme construído com excertos de filmes super-8 pela realizadora Yaël André. Não sendo possível encontrar um fio condutor entre eles, a realizadora sobrepõe sobre eles uma narrativa fantástica que vai do nostálgico, passando pelo melancólico, o poético, o filosófico e até à ficção científica. Nela, conta a história da sua relação com Georges, um amigo de infância que perdeu.
Este é um filme estranho, com uma constante dissonância entre as imagens e a palavra. Apesar da introdução de foley para tentar que as imagens tenham uma presença diferente, a ligação destas ao que é dito não é óbvia, com a realizadora muitas vezes a acabar por escolher planos de viagens e paisagem, tentando retirar qualquer peso de simbologia ou interpretação que as imagens possam ter. Esta dificuldade acaba por ter a ver com a própria base do filme: limitada aos filmes que tinha (apesar de alguns excertos ter sido a própria realizadora a filmar) torna-se difícil encontrar material suficiente para a criação de uma personagem no ecrã, por isso a escolha da narrativa em voz off e de uma personagem que não se vê.
Esse é o menor dos problemas do filme. O tom da narrativa e da voz que o lê é demasiado afectado, mesmo irritante, tornando-se com o tempo e em conjunto com as imagens que se vão sucedendo sem parar, aborrecido. Há aqui um esforço muito grande por se ser esperto e ingénuo, ficando-se o tom usado perto do daquelas crianças irritantes que não se calam apesar de já lhe termos pedido várias vezes e que vão debitando uma cadeia inane de ideias que pensam tão interessantes e inteligentes. Claro que, às crianças, isso se perdoa, mas a marmanjos que nos vendem filmes de hora e meia com esse tom, a tolerância não se aplica.
Os elementos filosóficos e fantásticos estão muito mal desenvolvidos e a poesia é de tal maneira encaixada e feita a metro que lhe falta a leveza essencial para funcionar. O que não quer dizer que este seja um mau filme, nem sequer chega a isso. Apenas um filme aborrecido e pouco subtil, tão leve como feijoada num menu de saladas.
O Melhor: A ideia.
O Pior: A voz e o tom da narrativa.

João Miranda

