«Historia del Miedo» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Se o conceito de classe foi posto em causa pelo pós-modernismo, com a sua fobia das “grandes narrativas“, este tem-se mostrado bem vivo depois da crise de 2008. A grande vitória do movimento Occupy foi trazê-lo de novo para o mainstream e operacionalizá-lo para permitir uma crítica do capitalismo, tão necessária depois da apropriação da palavra “liberal” pelas forças do mercado. É sobre o conceito de classe, as fracturas sociais modernas e os medos que estas originam que Benjamín Naishat vai construir Historia del Miedo.

Em Historia del Miedo as classes sociais foram descarnadas até ao osso e todas as suas tensões e ansiedades expostos de forma visual, mantendo ao mínimo a conversa e as explicações, com Naishat a procurar construir uma semiótica política do medo social. Para isso, vai usar as convenções do cinema de terror e dos thrillers, construindo um ambiente de ameaça constante, que se estabelece nas primeiras imagens do filme e não se pode dizer que se resolva com o seu final (nem o realizador o procura). As várias personagens que vão interagindo no filme vão sendo ameaçadas por acontecimentos estranhos, pelos media, pela tecnologia e, claro, umas pelas outras.

Este é um filme oportuno, não só na Argentina, de onde vem o realizador, mas também noutros países. Num momento em que a extrema-direita e outros movimentos fundamentalistas tornam a surgir como reação a estes medos de classe, é importante que se consiga perceber as suas origens. Naishat não explica todos estes temas, mas dá-nos uma ferramenta visual que podemos usar na produção de outros filmes de forma consciente e crítica.

A grande falha do filme é evitar qualquer forma de violência (até a simbólica, como a definiu Bourdieu, podia ter sido mais evidenciada) e perder-se em dispositivos que caem mais para o humor do que para o inquietante, perdendo alguma da sua força.

O Melhor: O ambiente; a imagem.
O Pior: O dispositivo da interrogação que descai para o humor e dispersa alguma tensão.


João Miranda

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