
O Novo Evangelho de Jesus Cristo Segundo João é o novo filme de Nuno Leonel e Joaquim Pinto, depois de terem ganhado o Grande Prémio Cidade de Lisboa para Melhor Longa-Metragem da Competição Internacional o ano passado no Doclisboa com E Agora? Lembra-me. Este filme vem na sequência do trabalho que Luís Miguel Cintra, o ator, tem feito de gravação e apresentação de leituras de vários textos religiosos. Não pretendo aqui discutir religião, a qualidade do texto apresentado ou a leitura política que podemos fazer deste ressurgimento religioso, agora que tantos outros valores de um Regime que deixou más memórias se levantam de novo. Antes, quero discutir a pretensão de esta obra poder ou não ser cinema.
Este filme tem três modos, que se vão intercalando, segundo os realizadores, de acordo com códigos de visão/luz e cegueira/escuridão do próprio texto. O primeiro é o texto (sempre presente) sobre imagens da natureza que rodeiam as três pessoas (os realizadores e o ator). Este modo lembra aquelas apresentações feitas em powerpoint que por vezes nos chegavam ao mail no Natal, com imagens e música fácil e um texto de cariz religioso por cima, e que agora foram substituídas por filmes no youtube, muitos deles também sem música (como este filme).
É, curiosamente e apesar da sua qualidade duvidosa, o mais cinemático dos três modos usados neste filme. O segundo modo é só o texto, com a imagem a negro. Este modo é bastante conhecido entre nós, tendo surgido ainda antes do Cinema, como Rádio. Sim, agora este modo é também usado para livros áudio (como os outros que Cintra já gravou), mas, dificilmente, se poderia definir como cinemático. O terceiro modo é uma espécie de making of dos anteriores. Neste modo vemos o ator a recitar o texto e um dos realizadores agarrado à mesa de mistura a seu lado. Qualquer comentário obliterado pelo texto do Evangelho que continua a ser lido, este modo acaba por ser tão pouco cinemático como o anterior, já que, por causa das opções tomadas na filmagem, nem sequer nos permite ver com cuidado o trabalho do ator ou descobrir algo sobre o processo.
O resultado é um filme que, a não ser que haja já um interesse do espectador antes de entrar na sala, afasta qualquer um. Que o testemunhem a quantidade de pessoas que abandonaram a sessão em que estive e o senhor que ressonou durante mais de metade do filme algumas filas atrás de mim. Percebo a intenção dos realizadores e do ator de tentarem usar a palavra para tentarem atingir alguma forma de transcendência. É bonito, sim, mas não Cinema.
O Melhor: A leitura.
O Pior: A ideia dos realizadores não se transpõe bem para o meio utilizado.

João Miranda

