
A Costa da Morte situa-se no que se acreditou ser o fim da Terra, o Cabo Finisterra, na ponta ocidental da Europa, nas margens do Atlântico. Com uma costa perigosa e marcada por uma história de naufrágios e piratas, Lois Patiño tenta documentá-la neste filme em toda a sua beleza e crueldade. Este é um filme essencialmente visual, com imagens poéticas ou tensas, sobre as quais se vão sobrepondo as narrativas dos habitantes locais, com contornos, por vezes, históricos, outras, míticos. Esse é um dos seus pontos fortes: a forma como consegue complementar as imagens com as descrições orais que trazem uma riqueza e uma complexidade ao que poderia, de outra forma, ser apenas um conjunto de postais ilustrados. O passado do realizador como artista audiovisual contribui para a fotografia do filme, com a paisagem e os elementos sempre a dominarem, por vezes mesmo ameaçando as pessoas que nela vão fazendo as suas tarefas quotidianas.
Se há quem acredite em realização profissional ou nas ideias de que podemos escolher outras actividades profissionais quando não nos sentimos felizes com as que temos ou que a pobreza é algo provocado pela preguiça ou falta de vontade das pessoas, Costa da Morte mostra-nos um mundo pré-capitalista quase mítico, onde a sobrevivência dita a realização de actividades perigosas e o respeito para com os elementos e o mundo que nos rodeia é, mais do que uma escolha, uma necessidade. É curioso como um filme que nos pretende mostrar uma zona do mundo nos pode fazer pensar sobre as construções culturais em que assenta uma das grandes mentiras da cultura ocidental, mas esse é o poder da Arte: fazer-nos reflectir sobre a nossa realidade e pôr em causa coisas que tomamos como certas. Nesse sentido, Costa da Morte é, sem qualquer dúvida, Arte.
A apontar como fraco, apenas algumas das sequências e as passagens entre imagens que não parecem fazer sentido ou são muito bruscas (como, por exemplo, a sequência do mesmo plano tiradas em alturas diferentes do ano, separadas a negro e com um corte de som perturbante).
O Melhor: A fotografia; as conversas dos habitantes.
O Pior: Algumas sequências.

João Miranda

