
Mouton (ovelha) conta a história de alguém que tem essa alcunha e o seu dia-a-dia numa pequena aldeia junto ao mar. Este é um filme que não procura grandes emoções ou acção. A rotina diária é repetida no ecrã, com algumas variações, mas não querendo romantizar ou de forma alguma estimular o que costuma ser aborrecido. A primeira metade do filme segue a sua vida na aldeia de Courseulles-sur-Mer, a trabalhar como ajudante num restaurante, envolvido nas tarefas habituais que aí se costumam desenrolar: carregar as mercadorias que chegam todos os dias, preparar o peixe, servir às mesas, etc. O aparecimento de uma colega com quem desenvolve uma relação amorosa é a única alteração a esta rotina (e dá origem a uma estranha cena entre os dois, muito pouco erótica ou naturalista). Na segunda parte do filme, num acontecimento estranho que faz com que Mouton saia da cidade e que uma narração apareça do nada, o foco é só no quotidiano das pessoas que aí ficaram e do pouco ou nada que se lembram dele.
Este é um filme difícil. O ritmo é lento e as repetições não ajudam. Sim, é compreensível (e, de alguma forma, até admirável) o que os realizadores Gilles Deroo e Marianne Pistone estão aqui a tentar fazer, mas há vários elementos que fazem com que, no final, este filme não funcione (ao contrário do que muitos críticos e júris de festivais dizem) e se torne numa tortura para quem assiste. Começa pela escolha pretensiosa de filmar em filme. Não se justifica, a não ser na mentalidade fetichista de algumas pessoas ligadas ao meio (e algumas delas até as admiro bastante), sacrificar a qualidade da imagem e os custos da produção que esta tecnologia implica. Os realizadores disseram, numa entrevista ao site “Film Comment”, que o vídeo dessacraliza o Cinema porque se pode filmar qualquer coisa e escolher dos vários takes no final.
Essa ideia de filmar como algo sagrado é absurda. Sim, acho bem que os planos sejam desenhados e que se seja eficiente nas filmagens, evitando o cansaço das repetições e a ideia de que tudo se pode improvisar e sair algo com qualidade, mas não vejo a vantagem do uso de película. Se é uma questão de limites, sejam disciplinados, não precisam de recorrer a uma técnica que está a desaparecer, isso é ser pretensioso.
Outro ponto que torna o filme difícil para o espectador são as representações. A cena central em que tudo muda é tão absurdamente mal representada e filmada que se torna ridícula (eu ri-me no cinema, assumo-o sem qualquer vergonha). Mas não é a única, o filme está pejado de cenas assim, mais constrangidas do que naturalistas, o que torna qualquer empatia com uma personagem que parece não reagir de forma humana praticamente impossível. Tome-se como exemplo a cena em que os “amigos” de Mouton o agarram e cospem um atrás do outro na cara dele, incluindo as crianças, enquanto este sorri. Qual a emoção que devia sentir ou o traço de personalidade que nos mostra sobre esta personagem? Pior, é destas personagens, que vamos acompanhar na segunda metade do filme, que devia esperar uma qualquer lembrança da pessoa em quem cospem?
A estrutura do filme, tendo em conta o que quer ser representado, acaba por também custar ao espectador, sendo perfeitamente possível alguém adormecer e acordar 15 minutos depois sem ter perdido nada. Para algumas pessoas isto é interessante, para muitas outras, nem tanto. A segunda parte, que segue as várias pessoas que não conhecemos na primeira a não ser de raspão, não consegue encontrar no espectador interesse, porque não foi feito bem o trabalho de construí-las na primeira parte, quando ainda interagiam com Mouton, tornando-a toda descartável e sentindo-se muito mais longa do que na realidade é.
Este é um filme com algumas ideias base interessantes, mas que acaba por se perder no pretensiosismo e na má qualidade da representação e das imagens. Que lhe dêem prémios e o incluam em listas no final do ano, por mim, prefiro ver outras coisas.
O Melhor: O documentar da Festa de Santa Ana; a intenção de filmar o tédio do quotidiano e a ausência de uma personagem principal.
O Pior: As representações e as cenas constrangidas e constrangedoras.

João Miranda

