«Amor, Plástico e Barulho» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

 

Duas artistas de “brega”, um estilo musical cuja correspondência em Portugal seria o pimba, encontram-se em dois pontos distintos da sua carreira na mesma banda: Jaqueline, representada por Maeve Jinkings, é uma estrela conhecida que se encontra em declínio e Shelly, representada por Nash Laila, que procura ascender ao estrelato. A relação das duas é apenas um pretexto para Renata Oliveira e Sérgio Pinheiro, que escrevem e realizam este filme, tentarem esboçar o retrato de uma classe social brasileira pobre. Às imagens das duas artistas, filmadas com a fotografia cuidada e baseada num conceito de glamour característico da música que fazem, intercalam-se imagens de baixa qualidade (que normalmente associamos à internet e aos filmes feitos no telemóvel) de anúncios e da abertura de um mega-centro-comercial, mostrando os realizadores as opções limitadas de identidade que são apresentadas às pessoas dessa classe social desprivilegiada.

Uma das coisas que o filme faz bem é não assumir uma posição superior ou fazer pouco do “brega”, antes, parece conseguir integrá-lo e usá-lo para contar uma história clássica de rivalidade artística e da fugacidade do estrelato. Este é um filme que procura, a partir das superfícies que definem o “brega” (que parece não querer ser mais do que superfície), mostrar a profundidade das personagens que dele fazem parte. Para isso, conta com o trabalho impressionante das suas actrizes principais, principalmente com o de Maeve Jinkings, que consegue aqui romper todas as superfícies com uma emotividade desarmante (veja-se a cena em que canta uma daquelas músicas inanes num soundcheck). Se o filme começa com as duas atrizes juntas numa casa-de-banho a vomitar, a sua rivalidade vai ser construída com as suas expressões individuais, revelando o ponto da fama em que cada uma se pensa (o aborrecimento/tristeza dos olhos de Jaqueline opondo-se ao quase-vídeo-de-música da cara de Shelly).

O final do filme será mais ou menos esperado, tendo em conta tantas histórias semelhantes que ocorrem todos os dias, mas a relação entre as duas mulheres surpreende-nos, bem como a forma como conseguem exprimir uma variedade de emoções usando um estilo tão limitado como o “brega”. Uma boa primeira longa-metragem para este duo de realizadores que antes se dedicavam à produção e a direcção artística.

O Melhor: Maeve Jinkings.
O Pior: Há umas pontas soltas nas relações amorosas das personagens.


João Miranda

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