«Sobre la Marxa» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Se há documentários cujo mérito é essencialmente construído, seja pela forma do conteúdo ou pela qualidade técnica, outros há que têm a sorte de tropeçar num tema ou numa pessoa inacreditável. Sobre la Marxa é a sorte incrível de Jordi Morató, não só pela pessoa em que se baseia, mas também pela quantidade de material que já existia sobre esta. “Garrell” é o apelido pelo qual é conhecido Josep Pijula, um homem que construiu várias vezes um absolutamente impressionante parque, com torres, labirintos e outras estruturas, apenas para se “manter ocupado”, como diz o próprio.

A magnitude das construções de Garrell é difícil de relatar, podendo-se dizer que ocupava vários metros da “selva”, com torres de quase 30 metros de altura, estando disponíveis várias fotografias online. A qualidade das construções era tal que, nos anos 90, foram documentadas por uma historiadora de arte norte-americana, tendo esta pedido ao governo espanhol que não as destruísse quando estas se encontravam ameaçadas pela construção de uma estrada, defendendo-as como a maior estrutura de outsider art existente no mundo.

Mas “Garrell” não se limitava à construção; quando um adolescente que costumava visitá-lo traz uma câmara, este consegue convencê-lo a fazer vários filmes em que desempenha o papel de Tarzan, eternamente ameaçado pelo mundo civilizado, espelhando a vida real. Os filmes resultantes são hilariantes, mas também nos dão hipótese de vislumbrar a mente deste homem obsessivo e misterioso.

A cíclica construção e destruição das estruturas, o sonho físico que cresce sempre ameaçado por elementos externos, são uma mensagem poderosa do poder dos sonhos, tudo na pessoa deste “Garrell” que o realizador não procura nunca mostrar melhor, escolha que, neste filme, parece resultar.

O Melhor: Garrell.
O Pior: Seria interessante conhecer melhor essa personagem.


João Miranda

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