
Já tinha visto este filme. Quer dizer, não especificamente este filme, mas outros iguais. Filmes que pretendem documentar a ressaca da industrialização da zona do Vale do Ave. Lembro-me que na edição do Panorama (Mostra de Documentário Português) do ano passado havia uma sessão com três filmes só sobre este tema. Infelizmente, nenhum deles consegue fazer exactamente o que se propõe. Acham que basta percorrer o rio e encher o ecrã de imagens de edifícios arruinados para se perceber o que aconteceu. Nem as poucas entrevistas que fazem ajudam a compreender a situação completamente, focando-se apenas em algumas histórias pessoais.
Mas não é apenas na incapacidade de documentar o que se propõe que este filme falha: nem para com o Cinema consegue ser fiel. Se o digital veio permitir que mais gente possa fazer filmes, isso não quer dizer que todos o saibamos fazer. Muitos dos filmes que têm sido apresentados como documentários não são mais do que um aglomerado de imagens, sem qualquer noção de fotografia ou sequência, ignorando a capacidade do enquadramento ou das imagens se questionarem umas às outras na forma como são organizadas no tempo. Resultado: uma torrente caótica de imagens sem sentido, coladas a cuspo, incapazes de construir um todo coerente, quanto mais documentar o que quer que seja. Este é um desses filmes, tão desordenado que nos leva a perguntar se os realizadores faziam a mínima ideia do que estavam a fazer.
Pior, o desenho de som deste filme é muito agressivo, contribuindo ainda mais para o desinteresse de quem o vê. A cena de alguém a martelar continuamente as cordas de uma guitarra (sem qualquer acorde ou esforço melódico, como uma criança) ou a de miúdos inconscientes a partirem ainda mais uma fábrica já arruinada são momentos de violência sonora despropositada que nos levam a questionar a sua presença ou qual a intenção dos realizadores ao incluí-las.
Revolução Industrial é um daqueles filmes medíocres que um professor académico usa para mostrar ao resto da classe como não fazer cinema, cheio de erros básicos e incapaz de servir sequer para o que se propôs.

João Miranda

