
Em Les Grandes Ondes (à l’Ouest) uma equipa de rádio suíça vê-se em Portugal em pleno Abril de 74 e no meio de toda a confusão que domina o país nessa época. O filme tenta explorar com humor esses acontecimentos, procurando fazer uma ponte entre estes e a situação atual que nos afecta agora e tentando dar uma imagem de esperança para o futuro.
Lionel Baier pode ser uma pessoa bem-intencionada, mas afastada duas vezes dos acontecimentos sobre os quais quer construir uma comédia (tarefa já de si complicada). Primeiro por ser Suíço, depois por ter nascido depois do acontecimento. Estas características não são, por si só, impeditivas, mas fazem com que o realizador, neste caso concreto, trabalhe mais com estereótipos e ideias-feitas que levantam grandes problemas. Vir da Suíça faz com que não consiga evitar o olhar arrogante e paternalista que domina a Europa em relação ao nosso país: até podemos ser simpáticos e calorosos, mas somos preguiçosos, tacanhos e quase animais (veja-se o momento em que é oferecida uma maçã e o “animal de estimação” português que tinha sido colhido pela equipa suíça se move e se sente atraído pela oferta).
Neste filme somos tontos a tal ponto, que até um suíço bêbado e que não fala a nossa língua nos consegue facilmente maravilhar com o seu discurso inane, promovendo-o rapidamente (a nível popular, entenda-se) a General. E Fado, claro. Não é neste momento possível filmar Lisboa sem se ouvir Fado. É o nosso double decker e o Rule Britannia, a nossa Torre Eiffel e o acordeão ou a nossa Golden Gate e o tram. Só que, neste caso, o Fado seria algo que estaria mais ligado à ideia do Regime e a uma noção de destino que a juventude recusava, não fazendo qualquer sentido neste contexto.
Não ter vivido a época dos anos 70 (mesmo que não em Portugal) faz com que o realizador não se sinta obrigado de maneira nenhuma a ser fiel à cronologia do que se passou e que recorra a uma série de ideias feitas sobre revolução sexual. A equipa suíça consegue, apesar de a ter perdido, ainda apanhar a revolução em plena força, até com pides a apanharem raparigas de balaclava na rua (e a dançarem com elas em vez de dispararem sobre elas), e a Revolução de Abril transforma-se, sem qualquer sentido e de forma gratuita, numa orgia. Resultado: uma grande confusão. Não uma confusão no sentido de uma farsa divertida, mas no sentido de um chorrilho de disparates incongruentes. Há uns tempos circulava na net a gravação de uma criança pequena a tentar contar a história de Star Wars pelas suas palavras. Les Grandes Ondes” é assim: vagamente divertido, mas sem fazer grande sentido.
Pode argumentar-se que este é um filme cómico e que foram tomadas certas liberdades artísticas no sentido de não o tornar demasiado pesado, mas, para esse argumento funcionar, o resultado teria de ser muito melhor.
O Melhor: A intenção.
O Pior: Os estereótipos e falta de imaginação.

João Miranda

