«Swim Little Fish Swim» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Há uma ideia que um artista se deve manter “puro”, afastado de qualquer interesse comercial. Esta é uma ideia relativamente recente, já que a História da Arte mostra que esta (como a conhecemos hoje) se desenvolveu em proximidade com a classe mercantil e capitalista (e, antes disso, com a Igreja e a Corte), sendo usada como um dos símbolos de status e de justificação desta classe contra as razões divinas apresentadas pela realeza e pela nobreza. 

Só nos dois últimos séculos se desenvolveu a ideia romântica de que a Arte é algo superior ao materialismo do mercado e que este último só a poderá corromper e conspurcar. Se esta ideia serviu a muitos artistas que vinham de classes abastadas ou que tinham os conhecimentos necessários para receberem os fundos públicos que se foram estabelecendo com a ideia de que a Arte tem um interesse público e transformador, só tem servido, na realidade, para excluir as classes menos privilegiadas de poderem participar na Arte Contemporânea. No entanto, esta ideia foi apanhada pela indústria cultural e estamos continuamente a ser bombardeados com a ideia absurda de que qualquer interação comercial diminui a Arte, ao mesmo tempo que ouvimos falar nos valores milionários que algumas peças atingem em leilões e na qualidade duvidosa de alguma da Arte Moderna (veja-se este artigo recente do Guardian). Swim Little Fish Swim é outro dos produtos culturais que propaga essa ideia.

No filme, Leeward é um artista casado com uma enfermeira, Mary, com quem tem uma filha pequena. A diferença entre os dois fica logo marcada pelo nome que dão à filha: ele chama-lhe Rainbow (mágico!), ela, Maggie (que banal!). Há, desde logo, uma grande tensão no casal, com Mary a ser pintada a “má-da-fita”, sempre a querer impor regras e a pedir a Leeward que sacrifique a sua integridade artística para fazer (horror!) uma música para um anúncio. Nesses dias, Lilas, uma francesa filha de uma artista conhecida que procura estabelecer-se ela própria nessa área, vê-se sem casa e, através de uma amiga, acaba por ficar a dormir num dos sofás do apartamento do casal. Não querendo estragar o fim do filme, posso avançar que é tudo muito previsível e que não acontece nada verdadeiramente transformador ou impressionante.

O grande problema do filme é a forma como apresenta a sua ideia central: pretendendo mostrar “a viagem da infância à idade adulta”, como diz no site oficial do filme, a verdadeira transformação é efectuada sobre Mary, que passa de alguém que exige que o seu marido contribua para as despesas do casal a alguém que aceita a natureza da Arte como vista pelos autores do filme. Não é apresentada aqui uma alternativa sobre como poder rentabilizar uma atividade artística escolhendo as parcerias e os projetos que se fazem, antes qualquer interação com comércio é apresentada como má. Assim, o pobre do Leeward quase que perde a mulher por causa desse mauzão do Capitalismo e a pobrezinha francesa tem de lidar com as políticas de emigração que não reconhecem artistas que não tenham provas dadas, mas tudo fica bem no final porque a Arte é assim, transcendente.

Não se pode apontar o dedo à realização, aos atores, à fotografia, ao som ou a qualquer outro aspeto técnico, mas este não é um bom filme. Sim, vai ter público numa série de pessoas que se pensam a si e à Arte no mesmo registo que os autores deste filme, mas a inflexibilidade infantil e o maniqueísmo privilegiado da pureza artística que defende, só irão excluir vozes diferentes do panorama da Arte Contemporânea.

O Melhor: A imagem.
O Pior: Previsível e inconsciente, baseado numa ideia estúpida.


João Miranda

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