«El Loro y el Cisne» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Um técnico de som está a filmar um documentário sobre dança, enquanto a sua relação amorosa se desmorona. Numa das filmagens a vários grupos de dança, conhece uma bailarina por quem se apaixona. Esta é, sucintamente, a sinopse deste filme, que não está tão interessando no conteúdo, mas nas várias formas de o expressar. A história estende-se ao longo de duas horas, com El Loro (o papagaio, alcunha que dão ao protagonista) sempre à margem, com o perche erguido para captar o som não só do documentário que filma, mas também do filme que estamos a ver. El Loro é definido pela sua função, o microfone sempre presente serve como algo que o distancia da sua própria história, das pessoas com quem interage e até os momentos mais profundos lhe são negados com texto a encher o ecrã e o silêncio, transformando-o menos numa pessoa e mais num signo.

Este é um filme curioso, onde se torna difícil distinguir entre os limites do processo de o filmar do produto acabado. A estrutura do filme, ditada inicialmente pela realização do documentário, é invulgar e não o torna fácil, correndo o risco das repetições e da duração das cenas iniciais perderem o interesse do público ou de o preparar para algo que é abandonado a meio do filme. São várias as decisões artísticas que contribuem para isso. Facilmente compreensíveis, se refletirmos sobre elas (ato para o qual nem todo o público de cinema está pronto), mas cujo resultado nem sempre funciona. No final, este acaba por ser um exercício artístico que poderá ter algum reconhecimento dentro do meio, mas que dificilmente terá sucesso comercial. A duração do filme também não ajuda, com o filme a atingir as duas horas para uma história tão simples que não chega nunca a romper a superfície da narrativa, tão focado que está no processo e na expressão.

O Melhor: O esborrar dos limites entre processo e produto acabado.
O Pior: A estrutura, a duração, o ritmo.


João Miranda

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