
Qual a origem do Prazer e da Euforia? Esta parece ser a pergunta que se coloca Hitoshi Matsumoto, o realizador de R100. Não de uma forma verbal ou inteletual, mas percorrendo uma cadeia de acontecimentos delirantes que, mesmo com os momentos mais auto-reflexivos que por vezes a interseccionam, não parecem querer fazer muito sentido. Takafumi Katayama é um homem banal, pai de um filho pequeno e trabalhador numa loja de artigos para a casa, que procura algo que o retire do torpor do seu quotidiano. Assina, então, um contrato de termos muito duvidosos com uma empresa igualmente suspeita, onde concorda em submeter-se a várias Dominatrix que o poderão abordar a qualquer altura, em qualquer lugar, pelo período de um ano. Como seria de esperar, o prazer que retira das interações iniciais começa, pouco a pouco, a ser ameaçado pela insegurança dos contextos onde estas podem ocorrer, mas quando tenta terminar o contrato, descobre que isso não será tão simples como pensava.
Se, com os seus filmes anteriores, Hitoshi Matsumoto já nos tinha habituado ao seu discurso delirante, onde aceitar funciona melhor do que interpretar, aqui o aproximar desse discurso a um quase realismo torna difícil não cair nesta última opção. O tom inicial do filme é um mundo esvaído de cores, mas em nada fantástico (talvez a falta de reação das várias testemunhas perante as várias humilhações a que Katayama é submetida seja o que mais estranhamos, mas que facilmente conseguimos justificar com a ideia que temos dos japoneses), o que nos leva a pensar que este poderá ser um filme como Romance X ou Nymph()maniac, mas qualquer conclusão a que possamos ter chegado é afastada a meio do filme, quando este estilo e narrativa são afastados para dar lugar a um combate entre Katayama e a muito duvidosa empresa com a qual assinou o contrato. Rapidamente o estilo usado até aí é substituído pela estética de um filme B e uma estrutura fragmentária e menos coerente.
Se o título e as tais secções auto-reflexivas que por vezes surgem parecem querer indicar que este é um filme que aponta para uma audiência com mais de 100 anos, essa promessa fica muito longe de ser realizada. Num mundo constantemente inundado de imagens pornográficas e onde a mais extrema das acções está apenas a um clique de distância, R100 não consegue verdadeiramente chocar, ficando-se por um divertir quase ingénuo. Talvez se o realizador tivesse procurado mais a fantasia ou recusado que a simbologia já tão conhecida se prendesse aos significados habituais, pudesse ter criado algo verdadeiramente original. Como está, R100 é como a chiclete que cantavam os Táxi há tantos anos: “prova, mastiga e deita fora sem demora“, um filme divertido, mas olvidável. O que não quer dizer que este filme não poderá ganhar o status de culto (tem vários elementos de humor e estilísticos que podem criar alguns seguidores), mas nunca terá o carácter subversivo de Rocky Horror Picture Show, com o qual partilha alguns elementos.
Como curiosidade, o filme permitiu que Lindsay Hayward, que antes era conhecida por ser a wrestler mais alta, quando lutava como “Isis“, ganhasse o Recorde Guiness para atriz mais alta num papel principal, ultrapassando Sigourney Weaver, Geena Davis e Brigitte Nielsen.
O Melhor: O humor.
O Pior: A estrutura, a falta de coragem para levar até ao final o que prometia na primeira parte.

João Miranda

