
Pinocchio é uma daquelas personagens que já teve tantas encarnações e já faz parte de uma imagética infantil moralista (“Olha que te cresce o nariz como ao Pinóquio!”) que a maior parte de nós, apesar de (graças à Disney) estarmos convencidos que não é assim, desconhece por completo a sua origem e história original. Não pretendo aqui tentar esclarecer essas pessoas, primeiro porque uma pesquisa simples na internet permite fazê-lo, depois porque eu também era uma dessas pessoas e seria hipócrita da minha parte fazê-lo, mas Pinocchio, o filme da competição internacional da Monstra, pretende aproximar-se mais da história, tal como Carlo Collodi, o seu autor, a escreveu.
Não é uma tarefa fácil tentar adaptar o que começou por ser uma série de fascículos escritos no século XIX ao cinema: se, como escreveu L. P. Hartley, o Passado é um país estrangeiro, e todo o tempo que passou entre a origem de Pinocchio e o nosso presente foi cheio de transformações sóciotecnológicas que tornam, por vezes, certos elementos incompreensíveis ou obsoletos, a sua estrutura episódica acaba por fazer com que o filme seja marcado por um ritmo que se aproxima mais da literatura do que do cinema. Se o tom excessivamente moralista também pode parecer-nos agora demasiado óbvio, Enzo d’Alo evitou, mesmo assim, alguns dos elementos mais chocantes da história original: na história original Pinocchio é enforcado pela Raposa e pelo Gato, no filme apenas o vemos pendurado numa árvore no dia seguinte, evitando-se o ato e tornando mais complicada a compreensão das cenas seguintes em casa da Fada do Cabelo Turquesa.
Apesar de todas estas dificuldades, Pinocchio é um filme que nos mostra uma personagem bastante diferente da construída pela Disney que acaba por, na maior parte das vezes, deformar toda a imagética infantil e reconstrui-la de formas demasiado limpas e polidas. A animação do filme, apesar de não ser nada de transformador, tem uma qualidade constante e dá força à fita, tornando-o num trabalho acessível e não aborrecido até para crianças alimentadas diariamente por televisão e youtube.
O Melhor: A fidelidade ao original, a qualidade da animação.
O Pior: O ser incapaz de encontrar uma solução para a natureza episódica da história.

João Miranda

