Mel apresenta-nos o trabalho de estreia da atriz Valeria Golino (vista em filmes como Rain Man: Encontro de Irmãos, de Barry Levinson, ou a paródia Ases pelos Ares, de Jim Abrahams) como realizadora, adaptando a obra literária de Mauro Covacich num drama que une a fome de viver com a vontade de morrer e que foi vencedora do Prémio Especial de Júri no Festival de Cannes de 2013.
Em Mel conhecemos Irene (Jasmine Trinca), uma jovem italiana que vive sozinha numa casa à beira-mar nos arredores de Roma e que, uma vez por mês, viaja para o México para comprar barbitúricos. Adoptando o nome de Mel (ou Miele), Irene faculta um trabalho nas sombras, facilitando a morte a todos aqueles que perante doenças terminais perderam a vontade de viver mais um dia. Apesar de repugnar este ato, ela dedica-se por completo por oferecer a paz divina ao seu cliente e seguindo os seus ideais éticos e morais. Porém, quando descobre que um dos seus “pacientes”, o arquitecto de idade avançada Grimaldi (Carlos Cecchi), não possui qualquer patologia mortal mas sim um aborrecimento em viver, Irene decide retirar-lhe os medicamentos e tentar convencê-lo de que vale a pena persistir com vida. Entre eles nasce uma amizade invulgar, por vezes conflituosa, mas sempre envolvente.
Jasmine Trinca é a roda deste veiculo assim por dizer, que faz movimentar todo o drama e emoção de uma fita suspensa por um tema delicado (visto a eutanásia ser proibida em Itália) e de toque de sensibilidade. Contudo, sensível em demasia já que Valeria Golino parece abusar da veia arthouse, interrompendo a sua narrativa fluída por momentos non sense ou por gratuitas performances da atriz.
Sendo apta em coordenar os planos e a câmara, Golino revela-se ainda inexperiente em traçar a linha narrativa, apresentando-nos mesmo assim uma estreia cativante, recheada de algumas tiradas de puro espetáculo humano e isso não poderemos negar. Infelizmente, tudo torna Mel num filme de momentos, sentido na hora mas sem a identidade suficiente para vingar no futuro. O olhar pessimista do muito cinema europeu tenta encontrar aqui uma luz e até existe faísca mas falta uma luminescência contínua.
Todavia, e mesmo “apoiada” por inexperientes opções, vale a pena esperar por outro trabalho na realização de Golino.
O Melhor – a atriz Jasmine Trinca
O pior – as aspirações artísticas de Valeria Golino interrompem em demasia uma historia que merecia mais afinidade.

Hugo Gomes

