
Por norma, Hollywood concretiza filmes para as grandes massas e devido a isso poderia existir um certo rigor nos conteúdos que os grandes estúdios decidem transmitir a tão abrangentes audiências. Em consequência disso é lançado um “filme-papagaio” como este 300: O Inicio de um Império, a sequela do êxito de 2007 (lançou Zack Snyder na indústria cinematográfica), um autêntico poço de anacronismos. Evidentemente existirão argumentos em defesa dessas mesmas liberdades artísticas que foram cometidas neste épico visual, visto tratar-se de uma adaptação de uma novela gráfica de Frank Miller, tal como o anterior. Contudo, esses irresponsáveis “pontapés na História” tornam o filme numa pomposa tragédia grega, com teor de telenovela à mistura, desde uma desmistificação e incoerência dos factos históricos em prol de uma iconografia cinematográfica até a uma consolidação de duas épocas temporais: o início da democracia grega representada no filme e a sociedade atual que se vive nos dias de hoje, sendo que neste último é fácil de identificar a emancipação e relevância da Mulher. Nada contra ao feminismo exposto, porém irrealista perante um cenário que demonstra certa oposição em tais igualdades sociais, que vai desde uma rainha espartana a lutar de igual aos seus combatentes conterrâneos (visto o verdadeiro orgulho que as mulheres em Esparta poderiam alcançar era a morte durante o parto) e para além disso, Gorgo (Lena Heday) apenas obteve relevância política na ausência de Leonidas, nunca interferindo diretamente no conflito global.
Por fim, Artemísia, aliada de Xerxes e general da frota marítima persa, figura acorrentada por embustes “factuais” que acentuam no seu destino, técnicas militares e natureza. Ironicamente, é neste “atentado histórico” que está reservado o melhor desta obra: Eva Green, compondo uma vilã que iremos adorar odiar, uma serpente em versão humana que conecta sensualidade com constante um estatuto letal. A atriz que marcou presença no cinema em Os Sonhadores de Bertolucci e mais tarde como a peculiar bond girl Vesper Lynd, em Casino Royale (Martin Campbell, 2006), carrega a fita às costas como Atlas da mitologia grega, compensando as interpretações ocas de Sullivan Stapleton (Temístocles, um herói esquecido que merecia melhor destino que um rip-off de 300) e um Rodrigo Santoro (Xerxes) agora reduzido a mero adereço.
Por outras palavras, este é um filme baço, limitado ao espetáculo visual, aos tiques de videojogo e sequências exclusivas do 3D – na obra anterior a desculpa seria a estilização gráfica e fidelidade com as páginas da matéria-prima. Com uma incapacidade de construir personagens, aproximando heróis históricos e semi-mitológicos em meros arquétipos de super-heróis do cinema norte-americano, 300: O Inicio de um Império transforma História num ordinário blockbuster plástico como tudo, como se o cinema se reduzisse a chroma keys. “Hollywood you did it again!“
O melhor – Eva Green, absolutamente!
O pior – o anacronismo, as sequências de ação inspiradas em videojogos e o visual forçadamente simbiótico com o 3D

Hugo Gomes

