«Nymphomaniac – Volume 1» por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Nymphomaniac, tal como o titulo indica, remete-nos a uma mulher, Joe (Charlotte Gainsbourg), espancada e deixada sozinha num beco por razões ainda desconhecidas, que é encontrada pelo “bom samaritano” Seligman (Stellan Skarsgård), levando-a este para a sua casa. Já dentro da habitação, Seligman curioso em saber o que teria sucedido a Joe, incentiva-a a relatar os factos. Após alguma hesitação inicial, a protagonista inicia a sua narração, desde os primórdios da sua existência até à sua juventude libertina e de auto-descoberta, tudo isto em modo de romance.

Lars Von Trier não cede a indiferenças, ou ama-se ou odeia-se, e o seu mais recente filme, Nymphmaniac, um épico sobre a descoberta e preservação da sexualidade, é mais uma prova dessa aura que só o cineasta dinamarquês consegue incutir.

Decidido a embarcar nesta demanda pela intimidade do individuo, novamente envolto de polémica e claro mediatismo, Von Trier apercebe-se que o tema original, o sexo per se, pouco tem a oferecer de provocante, mas isso não o impediu de o abordar, sem necessidades de sensacionalismo e sabendo que encontramos-nos numa sociedade onde tais temas são encarados com alguma naturalidade, não fosse o facto destes integrarem-se na cultura atual (basta ver os artistas de musica pop). Para poder contornar a banalidade desta temática, Von Trier encara essa indiferença com uma consolidação da sua criatividade, por vezes de forma absurda e delirante e sempre com a sua tremenda capacidade em expor uma história com fins pouco ortodoxos e académicos. Assim sendo, é fácil identificar os elementos do estilo do autor neste Nymphomaniac (o até então mais ambicioso filme de Lars Von Trier) e corresponde-los a uma narrativa com tiques de narcisismo artístico.

Se o cineasta é pretensioso até à medula, até aí nós sabemos, são provas como esta que o tornam num autor mais preciso e dinâmico na sua provocação, capaz de converter um banal enredo numa teia de complexidades e de teorias postas ao acaso que “encaixam” como puzzle neste completo quadro. É que é durante as interrupções e os impasses narrativos propostos, onde é possível encontrar os momentos mais divertidos, que Von Trier mostra a sua mente distorcida e rebelde. É matemática e teoremas cruzadas com ciência piscatória e polifonia de forma a engendrar um estudo aprofundado não do ato sexual em si, mas da necessidade do Homem em saciar-se na sua intimidade. Depois disto, Nymphomaniac apresenta dinâmica na sua abordagem, espírito libertino e com jubilo próprio para a provocação. Ao espectador é lhe retirado o “chão” e é lhe auferido impacto e, melhor, sedução quanto baste na sua contestação pelo erotismo algo perdido no cinema, aqui reinventado.

E tal como o cérebro humano, sexo é a solução de tudo, o resultado de todas as somas e o fim da linha de todos os trilhos, em relação aos níveis de obsessão pelas infracções ao pudor. Nisto, Lars Von Trier não merece qualquer tipo de julgamento quanto a questões de perversidade. Se tal for a acusação, então a montagem e a exposição visual seriam de facto o que o denuciaria. Nisto, Nymphomaniac não resultaria se a actriz que encabeçasse não fosse totalmente dada ao manifesto. O cineasta encontrou em Charlotte Gainsbourg o seu “molde” e na jovem Stacy Martin, a sua cúmplice. Uma ligação carnal de atrizes com o seu realizador.

Por fim, e infelizmente, este inicio de aventura luxuriante termina em modo cliffhanger, obviamente da melhor maneira possível, alimentando expectativas e antevendo uma segunda parte ainda mais envolvente, provocante, delirante e esperemos genial. Mas a contar o que foi visto desde então, bem, será que estaremos perante na obra que definirá por completo a carreira de Lars Von Trier? Devaneios sexuais em modo filosofia, está visto!

“Forget about Love”

O melhor – O elenco, a criatividade, as fantasias e irreverência de Lars Von Trier
O pior – Droga, temos que esperar pela segunda parte!


Hugo Gomes

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