Basta dar uma simples olhadela em Lovelace para ter a certeza de que o material daria para muito mais do que o exposto neste filme assinado pela dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman (Howl). A obra remete-nos para a transição do estatuto do cinema pornográfico, passando do marginal e com meios de produção duvidosos a puro luxo da era de Hefner, onde se deu a criação das primeiras estrelas porno. Linda Lovelace não foi só a primeira do seu género, como também a sensação do momento após a sua participação em Deep Throat (Garganta Funda, 1972), um filme porno-erótico tão bem sucedido que chegou mesmo a render mais nas bilheteiras que muitas outras produções feitas em Hollywood.
Assim sendo, o par de realizadores em conjunto com o argumento escrito por Andy Bellin (Trust) concentram-se na mulher em questão, dando origem não a um estudo da sua personalidade mas a um biopic tão rotineiro como qualquer telefilme. O enredo evita em trespassar os lugares-comuns do seu subgénero e apresenta as mesmas fraquezas que muitos dos seus congéneres – personagens descartáveis, cronologia esquemática e até mesmo alguns factos distorcidos em prol do espectáculo cinematográfico. A juntar a isto temos uma narrativa empapada onde se invoca uma dualidade não muito favorável para a narrativa, dando origem a uma simples confusão telenovelesca.
Tudo isto poderia ter resultado num desastre produtivo se não fosse o facto de possuir prestações sólidas dos seus protagonistas. Amanda Seyfried tem até ao momento o desempenho da sua carreira, uma lavagem quase “virginal” de Linda Lovelace que resulta na pele da atriz, uma sofredora ingénua mas angelical. Peter Sarsgaard como o “monstro” que completa a “bela”, é o terrível pesadelo da emancipação feminina. Por fim, temos uma irreconhecível mas vazia Sharon Stone e James Franco na pele do lendário Hugh Hefner. Lovelace merecia mais, muito mais do que um simples panfleto a roçar o televisivo.
O melhor – O potencial da história de Linda Lovelace. Os desempenhos de Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard
O pior – A trapalhada narrativa pelo meio, os lugares-comuns do habitual telefilme.

Hugo Gomes

