«47 Ronin» (47 Ronin: A Grande Batalha Samurai) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Um visual impressionante, dinâmicas sequências de ação e efeitos especiais de topo não chegam para esconder o maior dos defeitos de 47 Ronin, a sua incoerência histórica e a sua descarada liberdade artística. Fazendo passar-se por um filme série B com um colossal orçamento de 200 milhões de dólares (contradições à parte), a primeira longa-metragem de Carl Rinsch é baseada na mais amada e tradicional lenda japonesa, a história dos 47 ronin (samurais sem dono) que se reúnem para engendrar um plano de vingança em memória do seu falecido senhor, que havia sido condenado a cometer o suicídio (seppuku).

Lenda essa que aborda temas dignamente nipónicos como a honra, o sacrifício e a persistência, algo que nesta produção norte-americana é servida de forma maniqueísta, onde encontramos senhores feudais justos, sábios e estimados e os vilões são tão “ruins que nem serpentes” – algo que contraria a mensagem transcrita pelo mito e aproxima-se mais dos “nobres” ideais dos EUA.

Depois temos as heresias; Keanu Reeves como um halfbreed (mestiço), o improvável protagonista de uma história completamente japonesa em vias de integrar no código de honra dos samurais, para além de todo um conjunto de fantasias pueris e pouco orientais. Ou seja, como adaptação da lenda dos 47 Ronin (Kenji Mizoguchi concretizou em 1941, uma visão mais fiel) esta produção é um total fracasso e um desrespeito cultural. Contudo, se estivermos dispostos a isso, este acaba por ser um exercício divertido e visualmente sedutor, enriquecido com algumas das melhores sequências de ação do ano (com e sem uso de CGI). Para entrar no filme há que simplesmente desligar o cérebro, esquecer a lenda, os ideais e ignorar os tiques da cultura norte-americana nas entrelinhas.

Por fim, uma banda sonora energética por parte de Ilan Eshkeri e uma Rinko Kikuchi expressiva como a figura central antagónica resultam numa fita destinada ao entretenimento. Pelo menos funciona como “guilty pleasure“.

O melhor – Rinko Kikuchi, as sequencias de acão e os valores técnicos.
O pior – a “americanização” da lenda


Hugo Gomes

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