Alguém me disse certa vez que para entender e interpretar as questões expostas pelo cinema devemos compreender algumas bases de psicologia. Não é de todo errado essa sugestão, visto o facto de as obras cinematográficas serem produzidas por seres humanos “acorrentadas” às suas ideologias e emoções, mas a verdade é que a sétima arte tem mais relações com a própria literatura, nomeadamente no cinema clássico norte-americano, do que a convenções e teorizações psicológicas. E tal como relação entre psicólogo e paciente, a confiança é servida como pano de fundo para algumas das melhores histórias que o cinema conseguiu nos proporcionar, sejam eles os “ventos de mudança mental”, trazidos por professores pouco ortodoxos capazes de inspirar os seus pupilos, o irmão mais velho, o qual o protagonista confia com toda a sua vida, ou até mesmo – e no mais literal da palavra – a confidência entre psicanalista e o seu paciente.
Jimmy P. do francês Arnaud Desplechin (Rois et Reine) baseia-se na primeira psicanálise alguma vez registada a um nativo norte-americano, um feito do Dr. Georges Devereux, um antropólogo e psicanalista fascinado pela cultura índia, reportado no seu livro Reality and Dream: Psychotherapy of a Plains Indian. Nesses termos, este é o típico filme bem conduzido que atenua a ligação e a cumplicidade entre dois homens de diferentes mundos, por um lado, dois atores que nos apresentam uma química afável e dinâmica, disposta em atribuir emoções aos seus “por vezes” intensos diálogos e reflexões. Tudo isto é possível graças a desempenhos sólidos por parte de ambos os atores, mesmo que Benicio Del Toro se perca ao tentar estereotipar o seu personagem. É em Mathieu Amalric que as atenções recaem.
Dito isto, Jimmy P. (titulo que partilha com o nome do protagonista interpretado por Del Toro) é uma fita que se consolida com a energia do seu elenco, mas Arnaud Desplechin não consegue de todo equilibrar o filme a seu favor. Como já havia referido, é nos diálogos que se concentram o melhor da fita, mas a sua disposição é atrapalhada por representações oníricas pomposas e ao mesmo tempo rígidas, tornando a dinâmica interpretativa num conjunto de sequências emocionalmente vagas. Depois disto, fora das teorias psicanalíticas (sem aprofundar muito) da confidência entre paciente e o seu doutor, temos um filme meramente académico preso a uma ideia e que na ausência dessa mesma comporta-se como um tédio técnico e narrativo. Merecia mais este Jimmy P.
O melhor – A dinâmica e química do par de protagonistas!
O pior – um filme sobre psicanálise que tenta atribuir aquilo que chamam de humanidade, ou seja, torná-lo numa obra académica “para inglês ver”.

Hugo Gomes

