«L’Inconnu du Lac» (O Desconhecido do Lago) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

O autor Alain Guiraudie aborda uma praia fluvial de nudistas como um escape à realidade quotidiana. Todo este cenário esboça um mundo alternativo e marginal, onde a homossexualidade parece ser o segredo de cada um, a força motora para as suas necessidades. Um mosaico que gradualmente vai se construindo pela sistematização dos seus personagens, deparando-se o espectador com um singelo “when boy meets girl“, ou no caso de L’Inconnu du Lac (O Desconhecido do Lago), “when boy meets boy“.

A intriga centra-se em Franck (Pierre Deladonchamps), um jovem esbelto que frequenta estas ditas praias de forma rotineira, em constante busca de prazer e da integração social. Contudo, durante as suas aventuras neste local “guiraudiano”, Franck adquire um interesse romântico no misterioso Michel (Christophe Paou), que é para além de tudo um homem perigoso, capaz de tudo para atingir os seus objetivos.

Obtendo uma fixação envolvente e persistente como filme de obsessões, é inegável não reconhecer o mérito de Alain Guiraudie na mise-en scené ou da manipulação da luz que contagia algumas das valiosas sequências, como também a aptidão de construir um trio de relações vertiginoso que na reta final se converte numa derradeira viagem emocional. As interpretações dão o melhor de si, mesmo que o destaque caia no secundário Patrick D’Assumção, um homem de carácter assexuado neste cenário de luxuria que é servido como uma ponte de conexão entre aquela praia (difícil de abandonar) e o mundo fora-de-campo onde os peões desta fita estão determinados a interagir invisivelmente.

L’Inconnu du Lac é um dos filmes mais explícitos, naturalistas e arrojados na maneira como retrata a sexualidade dos seus personagens, o que poderá facilmente cair erradamente no “indigno” estereótipo de militância homossexual. Devido a isso, com adição da crueza com que simula as sequências de sexo e a cumplicidade dos atores nos momentos mais íntimos, L’Inconnu du Lac de Alain Guiraudie será motivo de repudio para os espectadores menos tolerantes em questões de orientação sexual. Eis uma obra singular, atmosférica, provocação de um certo sabor noir, que tem como senão a personagem de Jérôme Chappatte, o inspector intrusivo deste mundo oculto, que tem tanto de ridículo como de inverosimil.

O melhor – as ligações “tremidas” do triângulo principal
O pior – a militância homossexual afastará espectador e causará polémicas, fora isso, a personagem de Jérôme Chappate é uma absurdidade.


Hugo Gomes 

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