Inside LLewyn Davis é um regresso dos irmãos Coen ao seu estilo original, quase ausente desde O Brother, Where Art Thou?. Este é um retorno às suas comédias negras de carácter irónico, onde os Coen são desagradáveis no tom sem com isto afetar a qualidade da obra. Mas o que realmente os realizadores e argumentistas oferecem ao espectador é uma premissa com todo os ingredientes do cinema mainstream norte-americano, com a particularidade peculiar e vantajosa dos trilhos seguidos pela narrativa não serem aqueles que o espectador de ideias formatadas espera, mas antes percursos com maior sarcasmo.
Em Inside LLewyn Davis seguimos um músico folk que, após o desaparecimento trágico do seu parceiro, decide aventurar-se numa carreira a solo, arriscando tudo para o conseguir. É uma viagem que parece adquirir certos contornos de Lewis Carroll, aliás, como já havia referido, são muitos os pontos comuns com a obra datada de 2000 dos Coens (O Brother, Where Art Thou?), que se envolve num poço de excentricidades transcrita nas situações que o protagonista viverá ou das personagens que encontra no seu atribulado caminho.
Tudo isto envolvido numa atmosfera que parece rasgar visceralmente a sua melancolia interior, onde a fotografia de Bruno Delbonnel reforça esse sentimento. “Existe uma certa beleza triste na derrota“, já dizia Fernando Lopes no filme Lovebirds de Bruno De Almeida. Em Inside LLewyn Davis, os Coens conseguem invocar tal poesia da queda, tal filosofia de vida que no cinema norte-americano parece cada vez mais fortalecer os audazes.
Este é uma corrente contrária à fixação do cinema local independente em relação ao estereotipo de “loser“. Porém, sabemos que a personagem de Oscar Isaac não preenche tais requisitos. Por vezes de má índole, este é uma figura pela qual torcemos mesmo frente aos infortúnios que o perseguem. Tudo descrito numa interpretação de corpo e alma pelo ator que tem vindo nos últimos anos a deixar marcas. Ele entrega-se a um desempenho dito coenesco. Depois temos as suas perfomances musicais, emotivas e nada confrangedoras. Sou capaz de apostar que a nomeação ao Óscar está no papo para o ator.
Por fim, temos um elenco ao dispor dos realizadores, demonstrando profissionalismo e versatilidade no seu tom; John Goodman, Justin Timberlake, Carey Mulligan, o há muito desaparecido F. Murray Abraham, e o gato (quem veja o filme irá perceber a menção).
Inside LLewyn Davis é pura melodia de rua, triste mas enigmática, um dos melhores dos Coens em muitos anos.
O melhor – Oscar Isaac, uma performance de corpo e alma
O pior – Poderá ser vendido como um “feel good movie” o que não é.

Hugo Gomes

