Querer decorar “Os Lusíadas” é uma perfeita loucura, qualquer pessoa o percebe, mas, perante a loucura institucionalizada da (falta de) política nacional para a cultura, só um acto verdadeiramente louco a pode revelar. Mais do que louco, épico.
Épico como o texto em que se baseia, uma história sobre a coragem de pessoas levadas ao desespero pela falta de condições no país em que vivem e que procuram um futuro na incerteza das ondas que nos rodeiam. António Fonseca, ator conceituado há já muitos anos e muito longe de ter de provar alguma coisa a alguém, embarcou nesta nova lusíada por quatro anos, combateu o texto, a apatia e o desinteresse e conseguiu encontrar em Guimarães um porto onde pode recitar o poema todo, não debitá-lo, mas interagir com ele, falá-lo, mostrar a sua grandeza. Só que, tal como no final da vida de Camões, o futuro parece incerto. O interesse pela façanha esmorece e António Fonseca encontra-se agora aqui, no Doclisboa, a mostrar o registo feito por Sofia Marques, cansado e desiludido e citando do último canto:
“Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũa austera, apagada e vil tristeza.”
Felizmente existe este registo da viagem, uma nova lusíada contra uma nova Alcácer-Quibir económica para onde nos estão a levar, um registo não só da loucura, mas do homem que a levou a cabo, urgido pela necessidade que se torna mais premente com a verdadeira loucura de quem nos governa. Um retrato único e uma oportunidade única de se ver um verdadeiro acto de coragem e dedicação.
O Melhor: António Fonseca; a construção do filme; os vários níveis.
O Pior: A falta de público.

João Miranda

