Marcel Ophüls tem uma vida que não só atravessa a História do século XX, mas também a História do Cinema. Truffaut, segundo Marcel, tê-lo-á exortado a escrever as suas memórias. Escritas não só com palavras, mas com imagens e sons, Un Voyageur é essa narrativa, uma narrativa rica e com vários níveis, de um realizador de direito próprio, filho de outro grande realizador, Max Ophüls, e que fez parte de momentos importantes como a fuga dos refugiados judeus da Alemanha e depois da França ou o Maio de 68.
Com pouco mais de uma hora e três quartos, Marcel leva-nos numa viagem cronológica da sua vida, com participações de alguns dos seus amigos como Elliot Erwitt, Jeanne Moreau e Frederick Wiseman, usando “clips” de filmes, músicas e entrevistas. Há, no entanto, momentos em que essas entrevistas se conduzem de uma maneira curiosa, com Marcel a levar o entrevistado à resposta que quer, chegando mesmo a fornecê-la quando este não consegue fazê-lo. Esses e outros momentos levam-nos a questionar a credibilidade do realizador, mas, em vez de roubar ao filme, esta característica apenas nos faz concentrar mais e prestar atenção a tudo o que nos vai sendo dito e apresentado, obrigando-nos a assumir uma posição crítica perante o filme.
Qualquer autobiografia deveria assumir contornos mitómanos, com a fantasia e a reinterpretação de factos a sobrepor-se à servil noção da verdade: isso que fique para quem escrever as biografias. Quanto mais marcados esses contornos, menos se fica preso nas mentiras que não são propositadas, essas, sim, mais perversas, pequenas concessões que vamos fazendo na vida e que nos temos sempre de reconfortar com mentiras que vamos construindo. Como a história que Marcel conta com a lendária Marlene Dietrich, mesmo que não seja verdade, que grande história!
O Melhor: A riqueza da vida de Marcel Ophüls.
O Pior: Alguns dos clips usados eram estranhamento desligados do que se estava a dizer.

João Miranda

