Joaquim Benite, conhecido encenador português, morreu o ano passado enquanto preparava a sua última peça, quatro dias antes da sua estreia. Depois de dois anos doente, encontrava-se fisicamente debilitado, mas a sua cabeça continuava a funcionar bem e continuava, até ao fim, assertivo e com uma grande força de vontade. “A última encenação…” filma exactamente isso: a última encenação de Joaquim Benite, Timão de Atenas de Shakespeare.
O trabalho teatral é, mais do que mágico, um trabalho ingrato, na medida em que quanto melhor feito for, mais invisível se torna, só se tornando visível quando algo corre mal ou quando refletimos sobre o que vimos, e neste filme conseguimos ter ideia da quantidade de elementos que contribuem para aquele momento único. Assim, mais do que uma mera homenagem a Joaquim Benite, Catarina Neves, jornalista que já passou pela TSF, Público e SIC, consegue fazer uma homenagem ao Teatro, o que teria agradado muito ao homenageado.
Mas não são só elogios que se tecem neste filme; se a realizadora não conseguiu a entrevista que queria porque Benite foi para o hospital, há um momento em que os dois se encontram sozinhos e este começa a falar contra a falta de uma política nacional de teatro. Como outras áreas culturais, esta é outra que se encontra sob ataque de homenzinhos maliciosos e sem imaginação que vão avançando com uma política de austeridade corrupta, cujo único princípio é a transferência de capitais para uma elite internacional e a criação de mercados de trabalho deprimidos e incultos, preparados para fazer qualquer tipo de trabalho a qualquer preço. A vida de Joaquim Benite é um modelo contra essa austeridade maliciosa e contra os fantoches que as vão implementando na esperança de conseguirem beneficiar com ela, como o diz o subtítulo do filme: não basta dizer “não”, há que agir.
O Melhor: O Amor pelo Teatro e por Joaquim Benite.
O Pior: Algumas das cenas com os netos do encenador não adicionam nada ao filme.

João Miranda

