«Stemple Pass» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

 

O único descritor completo da realidade é a própria realidade, qualquer percepção ou descrição será necessariamente incompleta e/ou uma interpretação. O mesmo se aplica a qualquer mediatização desta, normalmente usando tecnologia que prolonga os nossos sentidos, fazendo com que qualquer produto cultural seja sempre uma operação de transformação sobre uma mediação redutora da realidade. Ainda assim, nos últimos anos tem surgido a ideia de que um cinema em tempo real se aproximará mais da realidade do que qualquer outro. Esta ideia é, obviamente, ridícula; tendo em conta todas as decisões que têm de ser tomadas para fazer um filme (enquadramento, foco, qualidade da câmara, som, duração dos planos, sequência destes, etc…), qualquer filme será sempre (sem qualquer exceção) uma ficção construída pelos vários participantes na sua construção. Sim, pode ser argumentado que um plano longo pode desestabilizar a relação do espectador com a imagem, levando-o a descobrir nela elementos e leituras que não são percebidas rapidamente, mas, isso não é a base da pintura e da fotografia? Não que estas não contribuam para e influenciem a História do Cinema, mas são meios diferentes que pressupõem técnicas narrativas diferentes (sim, por muito que queiram evitá-lo, qualquer filme incluirá sempre uma narrativa: é um meio e a mensagem que nele passa inclui nela uma narrativa fictícia que a apoia, com grau maior ou menor de sucesso) e o querer transpor as técnicas de um meio para o outro, nem sempre funciona.

Stemple Pass é um filme com quatro planos fixos de meia-hora, todos com o mesmo enquadramento, em momentos diferentes do ano, acompanhados, apenas nos primeiros minutos, de textos retirado dos diários de Ted Kaczynski, o Unabomber. Sim, pode argumentar-se que a duração dos planos pode ajudar-nos a entrar no espírito e no isolamento de Kaczynski, mas acabam apenas por trazer-nos para uma realidade bem distinta: a do desconforto das cadeiras do cinema, o ar condicionado, o rapaz ao lado que dorme profundamente. Em vez de nos conseguir aproximar da mente do Unabomber, o filme apenas consegue afastar-nos para a nossa própria realidade. Qualquer argumento de “veracidade” sobre o tema, é, como argumentei no parágrafo anterior, completamente minado pelo próprio meio.

James Benning é um daqueles realizadores prolíficos que constrói filmes baseados numa ideia-chave, tendo chegado, o ano passado, a realizar um filme de 98 minutos com um único plano chamado Nightfall. Qual a vantagem que este filme poderá ter sobre um verdadeiro pôr-do-sol, um evento que ocorre todos os dias? Será que é mesmo necessário levar-nos para dentro de uma sala e obrigar-nos a parar e ver o entardecer? A alienação mediatizada sobre alienação da vida moderna (sobre outras alienações constantes) poderá aproximar-nos de uma realidade que nos vai sempre escapando ou haverá aqui um fetichismo tecnológico?

Stemple Pass tem ideias interessantes, mas muitos problemas, começando pela ideia-chave de Benning da “paisagem como função do tempo” e acabando na utilização de textos de um terrorista misantropo. Ainda assim, há algo de único nestes filmes de Benning que não os tornam, com o enquadramento mental necessário, absolutamente insuportáveis, fazendo com que só sejam acessíveis para quem já está “dentro da piada”.

O Melhor: As paisagens.
O Pior: A duração dos planos, a utilização dos textos de Kaczynski.


João Miranda

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