«Manuscripts don’t Burn» por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Como cinema de carácter interventivo, é urgente ver este Manuscripts don’t Burn, uma obra do cineasta iraniano Mohammad Rasoulof, que viu o seu passaporte confiscado pelas autoridades do seu país em setembro de 2013, impedindo-o de apresentar o seu filme no circuito de festivais. Trata-se de um daqueles singulares casos em que o real se funde com a ficção, sendo que na obra de Rasoulof a grande ameaça de um regime autoritário é um pensador livre e de espírito indomável.

Em Manuscripts don’t Burn assistimos a uma clara tentativa de denuncia a um injustificável modo operativo de um governo. A censura e os crimes opressivos são motivos para este “apontar o dedo”, onde obviamente os factos verídicos são mais do que meras referências. São matéria moldável no tour de force da narrativa.

Assim sendo, o espectador depara-se com a tentativa de evasão de um escritor iraniano cujo os manuscriptos, memórias de tristes eventos que envergonham a sociedade nacional, são as únicas armas de combate e de garantia da sua vida. Paralelamente a isto, decorre uma verdadeira “caça às bruxas” aos seus amigos próximos, cúmplices de tais pensamentos e ideologias de guerrilha intelectual. Manuscript don’t Burn é uma obra bem implantada no teor ficcional, mas sempre munida com um discurso panfletário da sua causa, o que por vezes condiciona os desempenhos do elenco em prol de um objectivo comum. Enquanto isso, é notável que perante tal “folheto de denúncias“, Rasoulof consiga posicionar-se numa frente ao mesmo tempo que humaniza a sua disputa, e não falo em metamorfosear as suas vítimas em algo mais que somente nomes, mas sim os seus “agressores”, pais de família “assombrados” pelos seus dilemas e pelos fantasmas irónicos invocados pelo autor.

Este é um filme corajoso, um gesto ético que mesmo assumido como pasquim cinematográfico consegue incutir momentos fortes (as sequências de tortura são poderosas nesse termo) e uma realização segura por parte de Rasoulof para o ato. E sim, existe uma certa urgência em dar uma espreitadela aqui.

O melhor – Uma obra-denúncia de cariz urgente que se revela um autêntico ato de coragem
O pior – sobreviverá fora do contexto da denúncia?


Hugo Gomes

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