Eclipses é o retrato de uma família de Singapura vista pelos olhos do neto Daniel Hui, o realizador, que nasceu já nos Estados Unidos, onde vive e estuda cinema. Não encontramos aqui drama ou conflito, não se trata de um desses filmes, encontramos sim uma construção estética e poética da vida destas pessoas, uma visão só possível por um dos elementos da própria família.
Com uma fotografia cuidada, planos (quase todos) fixos, muito baixos ou close-up e de duração prolongada, há uma sensação de que, por vezes, a imagem se prolonga mais do que seria esperado, forçando um ritmo propositadamente lento que acompanha a poesia de algumas passagens, que intercalam com conversas práticas ou histórias da família.
A vontade de introduzir elementos poéticos nem sempre resulta, com alguns dos textos a soarem demasiado amadores (adolescentes, mesmo), com construções demasiado simplistas e falta de profundidade. Felizmente não é o caso de todos os textos que são ditos.
Durante o retrato da sua família, Hui consegue também tropeçar numa pequena parte da sociedade de Singapura: a classe média e as suas preocupações, os imigrantes do Bangladesh, a criada doméstica que está sempre a cantar cantigas de amor. Estes elementos conseguem abrir e aprofundar o que seria, de outra forma, um filme demasiado superficial e pessoal.
Devido ao seu ritmo e à sua natureza mais contemplativa e poética, este poderá ser um filme que não agrade a toda as pessoas, mas fotógrafos e directores de fotografia encontrarão nele elementos que irão de certeza agradar-lhes.
O Melhor: A fotografia; a realidade social a intrometer-se no retrato familiar.
O Pior: A qualidade de alguns dos textos.

João Miranda

