«Descomedidos y Chascones» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Em 1972, com apenas 24 anos e incapaz de imaginar o horror que aconteceria em poucos meses, Carlos Flores quis, com a arrogância típica da idade, fazer um retrato da juventude chilena num período de grandes transformações sociais lideradas por Salvador Allende. O filme, fruto da sua época, não só no contexto chileno, mas também no contexto da cultura norte americana globalizada, começa por estabelecer, recorrendo a técnicas fílmicas e estéticas, o confronto entre o que é esperado desta juventude e o que esta quer, apoiado sobre a crítica à publicidade que tanto caracterizou esta época. Nesta primeira parte a dicotomia estabelecida é a da Contracultura, do individualismo hedonista contra o conformismo e a submissão ao colectivo. Cómico por vezes, há pouco nesta primeira parte que consiga aprofundar verdadeiramente um discurso que, décadas depois, se revela uma mentira já demasiado batida.

É na segunda parte de Descomedidos y Chascones que Flores consegue, recorrendo a entrevistas a jovens ou pedindo-lhe que comentem partes do filme que vimos na primeira parte, desenhar o retrato de uma sociedade desigual e injusta. É aqui que Flores consegue, ajudado ainda mais com a passagem do tempo e tudo o que sabemos desde então, mostrar a urgência da ação política por esta juventude que sabia estar a viver um momento único e lutava para reduzir a separação entre as classes mais privilegiadas e as menos. Consegue também criticar de uma forma profunda e presciente o hedonismo individualista e o desinteresse político como estéreis que são, mostrando que uma juventude desinteressada e que procura só a felicidade não está habilitada ou consciente para a luta política e, como tal, se encontra privada dos intrumentos da sua emancipação e definição pessoal.

Cinta Pelejà, uma das organizadoras do festival, definiu os planos do filme em que se vê os jovens a trabalhar nas fábricas como uns dos mais bonitos do cinema. Sabendo que poucos meses depois a maioria deles faria parte dos mortos e dos desaparecidos da brutalidade do regime de Pinochet, é difícil ver o idealismo e a força destes e não sentir um arrepio. Apresentar este filme na mesma sessão em que é apresentado o filme Septembre Chilien reforçou esse sentimento.

O Melhor: A crítica a um dos (ainda agora) pontos de definição da juventude como apenas individualistas hedonistas.
O Pior: Algumas das técnicas usadas estão datadas e podem tornar-se aborrecidas.


João Miranda

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