«Septembre Chilien» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Dias depois do Golpe de Estado de 11 de Setembro, um pequeno grupo de cineastas franceses consegue entrar no Chile aproveitando a tentativa da Junta Militar de apaziguar a comunidade internacional e as acusações de brutalidade convidando jornalistas de várias nações. Apesar de muito controlados, Bruno Muel e a sua equipa conseguem fazer algumas entrevistas a estudantes, operários e estrangeiros que fizeram parte da resistência e que sobreviveram (por quanto tempo?) à repressão inicial e que lhe contam histórias de prisões arbitrárias e violência.

Apresentado na mesma sessão depois de Descomedidos y Chascones, o tom não podia ser mais diferente apesar de apenas alguns meses os separarem: a ilusão e a luta substituída pela desilusão e o medo. Apesar das declarações de resistência e da promessa de continuidade da luta, em retrospectiva podemos ver já as bases que mantiveram a Junta tantos anos no poder: a incerteza e a confusão, a repressão violenta e brutal, o reforçar a sobrevivência pessoal pela premiar a delação e pela falta de recursos.

Curiosamente, Pablo Neruda, que estava internado com cancro na altura do golpe, morre alguns dias depois (o seu assistente Manuel Araya Osorio afirmou que foi assassinado pelo regime) e é organizado um funeral que, apesar do recolher obrigatório e da proibição de Pinochet da presença de público, juntou milhares de pessoas, em parte apoiadas pela presença das várias câmaras e jornalistas estrangeiros. Esta é a primeira vez em que se vê o povo chileno manifestar-se contra o golpe, com gritos por Pablo Neruda, Salvador Allende e Victor Jara, bem como cantando “A Internacional” num momento em que, para além dos arrepios que se sentem, se vê claramente a ilegitimidade do golpe financiado e apoiado pelos Estados Unidos.

O Melhor: A resistência espontânea e a homenagem sentida.
O Pior: Não se revela que muitas das pessoas, no final do funeral, foram presas e desaparecidas.


João Miranda

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