«Sangue» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Há várias coisas perturbadoras no último filme de Pippo Delbono, ator e realizador italiano, e foi preciso algum esforço para não  abandonar a sala durante a exibição. Não costumo ler críticas antes de escrever as minhas para não ser influenciado pelas ideias de outros, mas, neste caso, a minha confusão levou-me a procurar online o que diziam outras pessoas sobre este filme e acho que Jay Weissberg da Variety o consegue apanhar perfeitamente: há uma falta de pensamento crítico por parte do realizador em todo o processo, aumentado por um narcisismo inquietante. O primeiro filme que me vem à cabeça quando quero falar sobre Sangue é o também perturbador Tarnation de Jonathan Caouette, uma autobiografia fílmica que levanta muitas questões sobre auto-representação e quais os limites éticos e artísticos no Cinema.

Admito que, tendo perdido alguém muito próximo há pouco tempo, talvez o tabu ocidental sobre a morte e a sua apresentação e o carácter privado da dor me tenham feito reagir com mais intensidade ao filmar de Delbono da sua mãe a morrer numa cama do hospital, depois filmá-la já morta e ainda uma cena seguinte, já no velório, mas até alguém lhe pede às tantas que desligue a camara. Bem sei que podemos argumentar que se trata apenas de um tabu, que noutras culturas é normal conviver com os mortos e expor o luto, que a substituição de memória pela tecnologia podem levar-nos a comportamentos de desespero perante o que não queremos esquecer, mas se, na cena que se segue a essa, Delbono se filma a guiar e a chorar, essas leituras são excluídas como transgressoras ou provocadoras de reflexão para se tornarem apenas numa exibição vergonhosa do realizador.

Fora dessas cenas centrais, há no final uma reflexão absurda, apoiada nas entrevistas com um dos membros das Brigadas Vermelhas, sobre a legitimidade da luta armada, apesar deste se manifestar obviamente contra a violência exercida no assassinato pelo qual foi condenado a 17 anos de prisão. Delbono sai deste filme como um tonto narcísico exibicionista, com uma câmara na mão e sem qualquer capacidade crítica.

O Melhor: A Música.
O Pior: A exposição da morte de alguém que não nos parece que concordaria com isso para fins egoístas e estúpidos.


João Miranda

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