A fevereiro de 2012, antes do início da Guerra no Iraque, Donald Rumsfeld, então Secretário de Defesa dos Estados Unidos, lançou-se no já mítico (de tão discutido e parafraseado) discurso das categorias de conhecimento. Nele definiu três categorias distintas: o que sabemos que sabemos, o que sabemos que não sabemos e o que não sabemos que não sabemos. Era sobre esta última que se apoiava para interpretar um relatório em que se afirmava não se terem encontrado armas de destruição maciça no Iraque dentro do argumento de que a ausência de prova não é prova de ausência e, tendo em conta tanta coisa que não sabemos que não sabemos, seria melhor avançar com um ataque preventivo. É óbvio que falta nessa sistematização do conhecimento uma quarta categoria: o que não sabemos que sabemos. Se em 2004 Žižek conseguiu explorar uma versão mais interessante desta quarta categoria, esta surge agora neste novo filme de Errol Morris numa forma mais ingénua.
Em The Unknown Known, Rumsfeld, que está aqui a utilizar o realizador Errol Morris de forma evidente, não procura pedir desculpa ou sequer assumir qualquer erro: está a criar uma quarta categoria de conhecimento que os absolve de qualquer culpa e a usar a continuação pelo governo de Obama de algumas coisas pelas quais foi acusado (Guantanamo, entre outras) como justificação do que foi feito, como se persistir num erro mostrasse que não se tratou de um erro, mas de uma inevitabilidade.
Há uns anos Morris entrevistou Robert MacNamara em The Fog of War num filme que, pela sinceridade e abertura do entrevistado, é melhor que este. É inevitável comparar os dois, tendo em conta as posições e as guerras que os dois atravessaram, mas a sinceridade de MacNamara desaparece em Rumsfeld e dá lugar a uma imagem mais esquiva de um homem muito inteligente, mas em quem não se pode confiar. Morris bem tenta no início perguntar porque aceitou Rumsfeld falar com ele, mas até aí este se escapa. Mas a culpa não se pode atribuir apenas a Rumsfeld; se Errol Morris é um mestre realizador de documentários, aqui surge com menos perspicácia e sem nunca fazer perguntas muito difíceis ou, se as cortou porque Rumsfeld não as respondeu, mais valia tê-las incluído para mostrar que não será por ele que este filme fica muito aquém do que poderia ter sido e acabar por servir os interesses de Rumsfeld e dos Republicanos.
O Melhor: Fica-se com a imagem clara de uma pessoa inteligente e esquiva, mais pelos silêncios e pelo uso da linguagem do que pelo que é dito.
O Pior: A falta de perguntas mais incisivas e incómodas.

João Miranda

