A 21 de fevereiro de 2012, alguns elementos do grupo punk feminista Pussy Riot encenaram o seu golpe mais audicioso até à altura. Habituadas a efetuarem pequenas ocupações de locais públicos para protestarem com a sua música contra situações com que não estão de acordo na política russa, resolvem nesse dia ocupar o que reconhecem como o centro da ligação entre a igreja ortodoxa russa e o estado: a Catedral de Cristo Salvador no centro de Moscovo. Apesar de não terem sido presas na altura, a situação foi tomando proporções em bastidores que se desconhecem que fez com que um mandato de captura fosse emitido para as prender.
Em Pussy Riot: A Punk Prayer vemos a história dos três elementos que foram presos, as suas participações em projetos artísticos, a história das Pussy Riot e das suas intervenções, o processo jurídico a que foram submetidas e a resposta internacional à sua prisão. Querendo evitar toda a construção mediática das Pussy Riot e dos seus vários elementos e não pondo em causa a legitimidade e a forma do seu protesto, o mais interessante do filme é a aparente abertura de todo o processo: a todos os momentos vemos a impressa ter acesso a todos os momentos do processo legal, sem qualquer restrição aparente. Por vezes, o filme chega mesmo a parecer um daqueles dramas legais que enchem os canais da televisão por cabo, com argumentação e contra argumentação pelas várias partes, mas, como nessas séries, tudo parece de alguma forma encenado: de alguma forma o processo jurídico está todo lá, mas como se estivesse oco, apenas uma representação do que deve ser um processo jurídico, com todas as decisões importantes a serem tomadas noutros lugares aos quais a imprensa não tem acesso. Essa é a verdadeira perversão da política atual (e aqui incluo também Portugal): todos os componentes do Estado parecem estar a funcionar e é essencial que estes de alguma forma fluam e sejam bem visíveis em todo o seu esplendor burocrático, mas não servem para mais do que ser uma fachada e esconder as verdadeiras vias de decisão.
As Pussy Riot continuarão a ser incómodas e a protestar (talvez com mais cuidado agora) e outras formas de luta surgirão, mas, se todos os mecanismos que temos de diálogo e controlo do estado são neste momento meras formalidades, qual a sua verdadeira eficácia?
O Melhor: O captar inesperado de um sistema jurídico falhado.
O Pior: Cai na quase-hagiografia dos vários elementos do grupo.

João Miranda

