«La Batalla del Chile» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

No final de 1972, um grupo de cineastas dirige-se ao Chile para tentar filmar a transformação social do país, protagonizada por Salvador Allende, eleito para o cargo de presidente dois anos antes. Quando aí chegam, encontram um país dividido pelas dificuldades causadas por um embargo que os Estados Unidos impuseram quando Allende nacionalizou a indústria de extração de Cobre e pelas ações reacionárias da oposição que controlava o Parlamento, o Senado, o Tribunal e alguns sindicatos. Allende, querendo evitar o confronto (que poderia escalar para uma guerra civil) e o autoritarismo (recusou sempre fechar o Parlamento), ia procurando compromissos com uma classe que ainda retinha muitos dos seus recursos e das suas ligações com as forças armadas, enquanto que, ao mesmo tempo, a organização a nível popular ganhava força e parecia adiantar-se muito além do programa do governo. Patricio Guzman e a sua equipa iam filmando encontros, manifestações, eleições, greves, confrontos, num total de mais de 20 horas de filmagens, até ao momento do Golpe de Estado, em 11 de setembro de 1973, quando foi levado com muitos outros para o Estado Nacional. Conseguiu fugir e refugiar-se em França e, de alguma maneira, levar o material já filmado consigo. Já o seu companheiro Jorge Müller Silva, operador de câmara, conta-se entre um dos milhares de desaparecidos do Regime de Pinochet. O filme foi finalmente montado em Cuba, com a participação de Julio Garcia Espinosa, que tinha escrito anos antes o “Manifesto para um Cinema Imperfeito“, que tinha levado Guzman e a sua equipa ao Chile.

O filme organiza-se em três partes: a primeira sobre as lutas políticas que antecederam uma primeira tentativa de golpe, a segunda sobre a violência que escala até ao golpe e a terceira sobre as várias organizações populares que surgem para lidar com as dificuldades com que a sociedade chilena se enfrentava. Tendo em conta o idealismo político dos cineastas e os apoios recebidos para a sua montagem, é óbvio que há sempre uma parcialidade na narrativa construída, ainda assim, é espantoso ver a candura com que é apresentada a presidência de Allende, as rivalidades entre as várias correntes de esquerda (para lá dos conflitos com a direita) e a incapacidade do governo de acomodar as formas organizadas de poder popular.

O cinema é um meio que nem sempre se adequa a contar os processos revolucionários: no terreno nem sempre se percebem todas as influências e forças que estão em jogo e muitas vezes acaba por apaixonar-se por iconografias simples e a emoção da população, perdendo-se a subtileza e a clareza de uma narrativa complexa. La Batalla del Chile, com as suas mais de 4 horas, tenta suprimir essa falha multiplicando-se em três filmes que se focam em diferentes aspetos do que se passou.

Em 1997, Guzman voltou ao Chile para percorrer alguns dos cenários do filme e encontrar-se com alguns dos participantes, registando tudo no filme Chile, La Memória Obstinada, que, infelizmente, não vai ser exibido no festival. Seria o complemento perfeito para esta trilogia.

O Melhor: A ambição e o tentar mostrar aspectos diferentes da mesma história.
O Pior: Por vezes torna-se repetitivo nos discursos ideológicos.


João Miranda

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