Instructions pour une prise d’armes é o título do livro de Louis Auguste Blanqui, socialista do séc. XIX, onde este desenha um programa militar revolucionário para, ao contrário de Marx, um pequeno grupo de revolucionários não-proletários estabelecer uma ditadura com o fim de criar uma nova ordem socialista. O apropriar desse título por Laurent Krief estabelece uma ligação directa com ideais revolucionários e a utilização de textos de Alain Badiou e Mahmoud Darwish anunciada na sinopse também parece apontar nesse sentido, mas a sequência inicial do filme mostra um fascínio quase fascista com o corpo (com imagens a lembrar o trabalho de Leni Riefenstahl entre os Nuba) e uma curiosa relação com o Ocidente.
Se o multiculturalismo é o apropriamento e mercantilização pela exotização de fragmentos de outras culturas para o consumo por parte de brancos abastados, neste filme, apesar dos textos que se opõem à cultura colonialista e capitalista, este parece ser invertido: se os participantes parecem ter sido escolhidos para um anúncio da Benetton (de entre os alunos de Krief, que se define no genérico como professor de matemática), as palavras e a música usadas são Ocidentais. Quanto à “revolução” (militar ou não) fica-se pelo correr por corredores da escola e por representações de masculinidade associadas ao hip-hop. Os textos densos debitados de forma repetitiva e monótona fazem com que grande parte do sentido que poderia ser retirado com a sua leitura se perca e se tornem, por vezes, incompreensíveis.
Só a meio do filme, uma conversa sobre o equilíbrio político do Médio Oriente parece ter alguma coerência e fica a pena de não ter sido melhor explorada, talvez num filme dedicado apenas a este tema.
O Melhor: A descrição do equilíbrio político no Médio Oriente.
O Pior: A falta de consciência sócio-política e a má utilização do meio do Cinema.

João Miranda

