«Closed Curtain» (Pardé) por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Em 2011, depois de ter sido condenado a ser proibido de realizar filmes por 20 anos e a 6 de prisão domiliciária uns meses antes, Jafar Panahi conseguiu fazer sair do Irão um registo sobre a sua situação de não poder trabalhar como realizador. This is not a Film era um filme em que se percebia o amor de Panahi pelo cinema e a sua frustração, bem com a de outros realizadores, perante a censura do Regime. Na altura, o filme percorreu vários festivais e chegou-se a temer represálias para o realizador. Agora, dois anos mais tarde, surge um novo filme de Panahi, neste caso já assumidamente um filme e co-realizado por ele.

A brutalidade e a censura do Regime Iraniano são factos documentados e ninguém nega a sua seriedade, mas há algo desconcertante neste novo filme de Panahi. Já o ano passado, Samira Makhmalbaf comentava connosco que a censura pode tornar, de uma forma perversa, alguém famoso, mas que esconde a realidade de muitos que estão no exílio ou na prisão num país em que não há direitos humanos. Em Closed Curtain, o registo parece situar-se nessa linha de realizador perseguido, mas a prisão domiciliária e a proibição de fazer filmes parecem mais “relaxadas” com o realizador não só a fazer outro filme, mas a fazê-lo noutro que não a sua casa. Não quero minimizar de forma nenhuma a situação dos iranianos, mas parece-me que este filme ser-lhes-á de pouco proveito e serve mais para construir a imagem de Panahi perante a comunidade internacional. É quase como se o Regime estivesse a usar Panahi para mostrar que as suas proibições não são assim tão rígidas de forma a esconder tudo o que faz ao cidadão anónimo.

O filme é uma alegoria simples, sem sequer ter a subtileza ou o artifício necessário para passar a censura, sobre a situação do realizador: o querer trabalhar e a depressão/frustração encarnadas em personagens que eventualmente dão lugar ao próprio realizador. Depois de This is not a Film em que se via a vontade de um indivíduo perante um Regime totalitário, este é um filme que parece só assentar na vitimização do realizador e nem o final positivo parece conseguir mudá-lo. Se não houvesse This is not a Film, este talvez fosse um filme aceitável, havendo, este é apenas um sucedâneo.

O Melhor: A vontade de fazer cinema do realizador.
O Pior: O focar-se só sobre si mesmo.


João Miranda

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