Há alguns anos tive algumas aulas de Teatro com a atriz portuguesa Suzana Borges. Nas aulas fazíamos exercícios baseados nas teorias de Strasberg e Grotowski, nos intervalos falávamos de Stanislavski, Artaud e do inevitável Peter Brook. Com livros clássicos como The Empty Space ou Le Diable c’est l’ennui, bem como com encenações, filmes e séries de televisão, Brook estabeleceu-se há muito tempo como uma das grandes influências do Teatro no século XX.
Em Peter Brook – The Tightrope, Simon Brook filma o seu pai com sete câmaras escondidas enquanto este trabalha com vários atores de várias nacionalidades. Para quem nunca teve acesso ao trabalho de ator, este é um filme mágico, onde se pode ver as várias componentes diferentes que podem ser trabalhadas na criação de personagens e na sua interacção: de um simples exercício inicial que dá nome ao filme, vemos surgirem instrumentos que são mais tarde usados na encenação de passagens da Flauta Mágica e da Tempestade, em cenas que vibram e vivem mesmo sem qualquer cenografia.
O filme em si é relativamente desconexo, saltando entre cenas sem qualquer ligação óbvia, no que se depreende que deverá ser o desenvolvimento das técnicas de Brook. A continuidade do filme está sempre a ser posta em causa em momentos onde vemos os atores a trabalharem coisas das quais não ouvimos falar e os nossos olhos procuram no movimento ou na cara do ator algo em que basear qualquer tipo de ligação com o que vimos nas cenas anteriores. Outro elemento que incomoda é o tom demasiado solene e reverente com que as pessoas interagem e com que está filmado, o que, em conjunto com o acompanhamento musical de pianista e de um músico chinês, confere ao filme uma pretensiosidade que ameaça o interesse que este pode suscitar.
Não sei se estarei a falar de um ponto privilegiado de alguém que já conhece várias técnicas teatrais, por as ter explorado ou lido sobre elas, e se a magia de todo este trabalho não exerce já sobre mim a mesma admiração ou se a desconexão e o tom pretensioso do filme me incomodaram assim tanto, mas este filme acabou por ficar aquém do que poderia ter sido.
O Melhor: Ver a magia do trabalho de ator.
O Pior: O tom demasiado solene.

João Miranda

