«Portrait of Jason» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Jason Hollyday é um pequeno criminoso, homossexual afro-americano que viveu pelo racismo e homofobia da América do pós-Guerra e que percorre as ruas de Nova Iorque e de São Francisco. Com um grau de credibilidade muito ténue, Jason conta a sua história e vai representando partes do seu ato de cabaret ao mesmo tempo que vai bebendo e fumando charros. Uma personagem fascinante, Jason vai desenhando, mesmo sem querer, um retrato muito pouco favorável de uma América onde o descontentamento tem crescido e a contracultura começa a surgir no mainstream.

É um filme do seu tempo, onde o fetiche da autenticidade e da verdade se revelam no final em toda a sua fealdade com Carl Lee, o colaborador da realizadora Shirley Clarke (filha de brancos abastados e sempre a tentar fugir disso), a atacar de forma torpe o pobre coitado a quem arrastaram para dentro de um quarto de hotel e a quem entrevistam durante 12 horas. Não é que Jason seja uma figura defensável, mas o ataque perverso a que este é submetido em nome de uma “verdade” que guia a contracultura levanta mais dúvidas do que as que responde.

Mais do que um retrato do que era ser homossexual e negro nos Estados Unidos, este é um filme sobre a crueldade pouco ética de uma contracultura branca, arrogante e abastada, que, tal como a realizadora, escolhiam chafurdar na esqualidez à procura de uma autenticidade numa mentira romântica de que a pobreza era mais “real”. Enquanto for vendido como um retrato “autêntico” sobre o colapso de um homem e sobre as construções do “cool” negro norte-americano, este filme apenas fará parte da mentira que ajudou a divulgar o individualismo pernicioso e a desigualdade, reforçando os limites que finge quebrar, num acto de transgressão ritualizada e ineficaz.

O Melhor: Jason e as suas histórias.
O Pior: O ataque torpe guiado por ideias pré-concebidas da realizadora e do seu colaborador Carl Lee.


João Miranda

Últimas