O Médio Oriente, muitas vezes chamado “O Berço da Civilização“, é uma geografia complexa: constituído por tribos, etnias, impérios, línguas e religiões diferentes, o conflito sempre foi uma das suas características principais. Depois da Segunda Guerra Mundial, com deslocações maciças de refugiados europeus e com todas as problemáticas coloniais e nacionalistas, todos estes problemas foram exacerbados, principalmente na questão de Israel, a sua legitimidade e o seu programa expansionista. Dois amigos, um Israelita, de uma família de árabes judeus, e um Palestiniano exilado em Telavive, resolvem embarcar num projeto de construir um filme em que exploram as difíceis identidades dessa zona, documentando todo o processo criativo, as suas histórias pessoais e as suas dúvidas.
Once I Entered a Garden é um filme com um orçamento muito pequeno, mas de uma riqueza e complexidade impressionantes. Se os momentos iniciais podem ser difíceis de seguir, a persistência é largamente recompensada com o desenrolar do filme e das conversas dos dois amigos, num desenvolvimento também emocional. Os pequenos filmes que o vão intersetando parecem estranhos a início, mas vão ganhando profundidade com tudo o que vai sendo dito e chegam mesmo a conseguir dar um melhor final ao filme do que o seu verdadeiro final, cerca de cinco minutos depois.
Filmado com apenas duas câmaras, este é um filme muito íntimo que se baseia mais no conteúdo do que na forma, apesar de conseguir explorar os limites do género do documentário de uma forma intencional. Como tal, pode não ser tão facilmente reconhecido pelo grande filme que é pelos espectadores que estão mais habituados a um documentário de formato mais ortodoxo ou pelos que estão apaixonados pela forma do cinema. É pena, porque se trata de um filme único.
O Melhor: Ali Al-Azhari, a sua vitalidade e o seu humor.
O Pior: Podia ter acabado 5 minutos antes, com maior impacto.

João Miranda

