«Noces Rouges» (Red Wedding) por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

A noção de que a História é algo que pertence ao passado e que só raramente a “vivemos” baseia-se na ideia de que o nosso quotidiano nada tem de especial e que só as ações de uma elite ou as reações massivas a estas têm alguma importância. Pode argumentar-se que esta é uma noção estruturante e excluidora dessa elite, serve para justificar a sua existência e, ao mesmo tempo, serve para excluir todos os outros, mas também que esta é uma noção que impede a ação contra algo que foi feito no passado, criando uma fratura entre a atualidade e o que se passou (reforçado pela fragmentação episódica característica desta disciplina e pela passagem do tempo) que é, por vezes, difícil de transpor.

Se qualquer historiador que se preze rapidamente explica o erro desta noção, é a realidade que muitas vezes nos confronta com consequências da História recente (ainda que não vivida assim pela novas gerações) nas vidas dos sobreviventes, acusados e vítimas, e na sua difícil convivência. Contra esta desigualdade do indivíduo perante a História, bem como contra o esquecimento histórico, geracional e temporal e por uma noção de Justiça baseada nos Direitos Humanos, foram criados vários tribunais, quer a nível internacional, quer a nível local, que procuram documentar os crimes cometidos, castigá-los e compensar de alguma forma as vítimas. O sucesso destes tribunais tem sido ambíguo, já que por vezes a sua autoridade não é reconhecida e outras vezes os criminosos não são trazidos até eles. É sobre estas falhas que o Cinema (principalmente o documentário, mas não exclusivamente) pode ajudar a documentar e introduzir na consciência coletiva construída pelos media crimes que continuam por ser levados à Justiça.

Noces Rouges foca-se sobre um desses casos: durante o regime dos Khmers Vermelhos, um movimento comunista radical que dominou o Cambodja nos anos 70, uma das teorias avançadas é que era necessário aumentar a população de 8 milhões para 20 milhões, de forma a criar a mão de obra necessária para a autossuficiência do país e espalhar a ideologia comunista. Para isso foram organizados pelo menos 250.000 casamentos forçados com o único propósito de reprodução. A visão simplística que levou ao terror do Ano Zero, conduziu aqui a violações de noivas que desconheciam os homens com quem as tinham casado, sempre vigiadas de perto, torturadas e executadas se não se dessem bem com eles e outros tipos de horrores. Como o falhanço do Ano Zero o demonstrou, não é possível substituir uma estrutura sóciopolítica por outra sem que algo da antiga sobreviva e, neste caso, isso faz com que vítimas e carrascos vivam lado a lado, numa convivência nem sempre pacífica.

O documentário mostra a história de Sochan Pen, forçada a casar aos 16 anos, e que, após 30 anos de silêncio, resolve apresentar queixa nas Câmaras Extraordinárias do Tribunal do Camboja, um organismo criado para lidar com os crimes dos Khmer, e confrontar os líderes locais. A sua rotina diária é sobreposta a filmes de arquivo onde se mostra a mesma rotina durante o regime dos Khmer, de forma que nos leva a refletir sobre o conceito de Banalidade do Mal de Hannah Arendt, que sugere que há sistemas sócio-políticos onde a crueldade e a desumanização são sistematizados a tal ponto que se torna difícil não agir de uma forma que, noutro contexto, seria percebida como má. A ligação entre as duas rotinas mostra que as bases humanas são as mesmas desde sempre: garantir que há comida e refúgio, cerimónias civis, amizades, mas que um regime cruel pode sobrepor-se a isso e criar estruturas de repressão baseadas no medo e no isolamento.

Produzido por Rithy Panh, realizador cambojano que viveu o regime dos Khmer Vermelhos e que se tem dedicado a documentá-lo e cujo último filme, The Missing Picture, é o candidato às nomeações ao Óscar para melhor filme estrangeiro, Noces Rouges é realizado por Guillaume Suon, com quem já trabalhou antes, e por Lida Chan, jornalista e arquivista, a quem formou. Com pouco menos de uma hora de duração, o filme consegue dar ideia, a partir de um caso específico, da dimensão de uma realidade escondida pela vergonha e pelo tempo que afeta ainda a população do Camboja. Ainda que não dê os contornos de toda a crueldade do regime dos Khmer Vermelhos, o filme consegue fazer parte de um diálogo criado entre as vítimas, o Tribunal, o arquivo existente e os vários documentários já realizados. Num momento em que os primeiros julgamentos ainda decorrem, em que a população ainda não fez maioritariamente as pazes com o regime e em que o Tribunal se vê ameaçado por críticas, pela falta de tempo e pela falta de dinheiro, é essencial que este diálogo não desapareça.

O Melhor: Conseguir dar a entender a magnitude da questão a partir de um caso.
O Pior: A câmara é demasiado intrusiva para com as personagens, pelo menos da perspetiva ocidental, tornando-se por vezes constrangedor.


João Miranda

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