A terceira longa-metragem de Jeff Nichols apresenta-nos um espírito rebelde que se conjuga com uma narrativa algo lírica, quase digna de um pequeno livro de aventuras. Não é por menos que o realizador, também ele argumentista, afirme que Mud deve muito às obras literárias de Mark Twain, nomeadamente os seus célebres Tom Sawyer e Huckleberry Finn, que são aqui apresentadas mais do que uma mera referência.
Sob um jeito aventureiro, eis uma visão máscula da adolescência, uma transição recheada de descobertas como também de desilusões. A verdade é que sem querer dramatizar tramas juvenis, Nichols compõe vários elementos fundamentais na formação de um individuo adulto; as primeiras paixões, o confronto familiar e até mesmo a deceções amorosas, que para além de serem subjugados como efeitos colaterais são ao mesmo tempo os alicerces referenciais para a intriga que se tece. Uma busca pela maturidade, não apenas presente nos jovens protagonistas, mas também em indivíduos adultos incapazes de lidar com a realidade que emerge diante dos seus pés, e é nesse preciso momento que entra o homónimo Mud.
Interpretado por Matthew McConaughey (existem atores que envelhecem mal artisticamente, mas este não é o caso), Mud é o centro de todo o filme, uma alusão adulta a Tom Sawyer, uma figura iludida face às suas responsabilidades e igualmente um sofredor crónico do efeito “Terra do Nunca”, ou seja, a recusa do elemento que tanto procura, a maturidade, o crescer. Tal confirma-se através da forma como confia e confidencia nos nossos jovens protagonistas (Ty Sheridan, Jacob Lofland), incutindo-se numa espécie de Peter Pan e os seus meninos perdidos em versão no Mississipi. É impossível não simpatizar com a personagem de McConaughey.
Assim, neste “vertigo” dramático de personagens, a intriga corre de forma fluída como a tinta nas paginas dos livros de Twain, onde os cenários – o delta pantanoso e as habitações flutuantes no rio – estabelecem-se como recetores de tais espectros, um amontoado de menções em prol de um filme que tem tanto de adulto como de juvenil.
Trata-se de uma obra forte nas suas pretensões e Jeff Nichols volta a provar que é dos realizadores norte-americanos mais convictos da atualidade, mas também algo débil na abrangência. Há um certo efeito em envolver-se em demasia na intriga (tentando ser aquilo que não é), mas falta-lhe alguma coerência para retratar todos marcos narrativos por igual, cedendo assim à inconsequência e inverosimilhança de algumas das situações expostas e a um final demasiado preguiçoso e “acorrentado” a uma das influências centrais do autor.
Contudo, a direção entusiasmante de Nichols, que regressa a temas já integrados na sua filmografia (as gerações criadas sob a violência e a disfunção familiar), a absorção do ambiente físico e espiritual de Mark Twain e o desempenho dedicado de McConaughey tornam este Mud num filme cuidado e peculiar no universo coming-of-age.
O melhor – o desempenho de Matthew McConaughey e os cenários
O pior – Existe muito sumo neste fruto ainda por espremer.

Hugo Gomes

