«Thérèse Desqueyroux» por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Adaptado do homónimo romance de François Mauriac, Thérèse Desqueyroux é uma obra que se dispõe com uma aura existencialista enquanto a protagonista tenta encarar a complexidade da sua personagem como um protocolo rotineiro. Perante as ideias, as filosofias “arrancadas” através das suas experiências pessoais (ou a ausência delas), a nossa heroína esboça uma crónica prolongada em relação à sua “enclausurada” vida que nem um pássaro engaiolado, um matrimónio ditado pela herança e as aparências que é reconhecido pela anedótica química que apresenta.

Tais correntes que aprisionam qualquer liberdade física da protagonista, remetendo-a a um automatização do seu inconsciente como escape de libertação, tornam-na numa personagem fascinante, indigna de merecer piedade por parte do espectador, já que muita da composição desta Thérèse Desqueyroux é similar a diversas figuras antagónicas dos mais variados romances ou novelas de época. E é essa ambiguidade que faz com o público sinta-se culpado por envergar outros sentimentos que não a pena nem a repudia, mas sim o desejo para que a personagem de Audrey Tatou (uma interpretação serena mas eficaz com a negrura do papel) seja bem sucedida nos seus planos de evasão à aquela prisão invisível que se denomina por rotina.

Sendo este o último filme que o talentoso artesão Claude Miller (1942 – 2012) conseguiu concluir, Thérèse Desqueyroux adquire um “sabor” especial no qual não se deseja o desfecho. Contudo, fora dessa nostalgia cinéfila somos presenteados com um trabalho de direção dinâmico ao mesmo tempo que classicista, abrangido por uma fotografia capaz, da autoria de Gérard de Battista. Eis um olhar cheio de cinismo à existência, enquanto esta já se encontra comprometida desde o berço às diferentes etapas da vida, o que aufere a esta adaptação um sentimento poético. As aparências são as maiores das ilusões para a alma.

O melhor – A realização e a direção de atores por parte de Claude Miller.
O pior – é um obra de teor existencialista que dificilmente agradará quem procura somente um romance de época (mais uma vez as aparências iludem).


Hugo Gomes

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