«Diana» por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

O mesmo homem que abordou os últimos dias de Adolf Hitler em A Queda (2005) retrata os últimos anos da Princesa de Gales, Diana. É um contraste enorme, visto que o cineasta alemão Oliver Hirschbiegel passou do homem mais odiado do mundo para uma das mulheres mais amadas de sempre, contudo longe do “mergulhar” negro e intenso da queda de um regime  marcante através dos derradeiros suspiros do seu líder, Diana é o típico filme biográfico com todas as fragilidades possíveis do subgénero.

Tais debilidades são evidenciadas desde cedo nos primeiros atos da fita, onde o quotidiano da “Princesa do Povo” é descrito em planos curtos, fechados, sob um olhar míope e apressado, um processo de esquematização radical mesmo sob essas práticas narrativas presentes neste tipo de filmes. Porém, Diana recebe alguma sobriedade e desenvolvimento quando a monarca conhece Hasnat Khan (Naveen Andrews), um cirurgião cardíaco com o qual manteve uma apaixonada relação. A partir desse momento o filme adquire um tom romântico quase digno da comédia genérica e a verdade é que surgem entre nós sequências divertidas e amorosas que tentam acima de transcrever um romance pouco ortodoxo por entre hambúrgueres e futebol. Umas escapatórias à rigidez sistemática do mundo de Diana que irá comprometê-la e “atirá-la” ao abismo entre a sua felicidade pessoal e a imagem de princesa mais poderosa da monarquia atual.

Depois de terminado o campo amoroso que o filme de Hirschbiegel transmite, Diana regressa ao seu formato mais desleixado e em constante “fast forward” narrativo, novamente esquemático como um documentário com a assinatura da BBC. O pior é que este objeto biográfico, para além de perder consistência, ainda possui o mérito de ser “povoado” por personagens mais que descartáveis, momentos absurdos e sem nexo para com a própria intriga e situações indevidamente inexploradas onde se crê que concentre a maior ênfase dramática da história. Ao invés disso, temos pura e simplesmente imprensa cor-de-rosa.

Este é sobretudo um filme sob todo os requisitos de “telefilme de luxo”, chegando mesmo a ser um exemplar fútil e dispensável na carreira de Oliver Hirschbiegel, que ocasionalmente evoca boas doses de cinematografia. Por fim, fica a questão se Naomi Watts dá conta do recado como a “Princesa do Povo”? Excepto as semelhanças físicas (principalmente de perfil), a atriz nomeada ao Óscar é inábil a transmitir algo mais que o simples modelo imaginário desta marcante personalidade. Felizmente, Naveen Andrews apresenta classe.

O Melhor – Naveen Andrews e os momentos amorosos com a Diana de Naomi Watts
O Pior – Como é possível um filme tão insípido ser dirigido pelo sempre intenso Oliver Hirschbiegel


Hugo Gomes 

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