Há filmes que não conseguem sobreviver ao “hype“. Há raros que conseguem, e existem ainda aqueles em que entramos na sala escura sem saber o que esperamos, e saímos de lá completamente embasbacados.
Num dia marcado por um par de surpresas (“Boy Eating the Bird’s Food” sendo mais uma confirmação da boa forma do cinema grego em expressar as convulsões identitárias marcadas por uma crise económica sem precedentes), foi este The Comedian a surpresa e salvação maior de um Festival que com a exceção do subvisto Concussion, se encontrava já aquém das expetativas geradas.
Escrito e realizado pelo israelita exilado em Londres Tom Shkolnik, o filme é um portento a todos os níveis, que pega num estilo realista à Dogma 95, com uns traços de Mike Leigh, e o revitaliza por completo, sendo tão bom ou até melhor que as suas origens. Será difícil de acreditar o que as notas de produção dizem, dada a perfeição que certas cenas aqui atingem, mas não só o filme nasce muito de improvisações entre atores, como tudo o que aqui foi filmado foi filmado à primeira. Além disso, como se não bastasse, as personagens adquirem os primeiros nomes dos atores, como se para confundirem ainda mais com eles, e também, presumo, para não se enganarem nos nomes no meio de tanta improvisação…
Aqui, o destaque é óbvio para a figura central. O brilhante Edward Hogg (pede-se aqui Prémio de Melhor Ator pelo menos!) interpreta Ed, um comediante que transpira falhanço por todos os seus poros. Não é propriamente um bom comediante – as gargalhadas geradas na sua grande cena surgem muitas vezes para disfarçar o desconforto ou em jeito de simpatia imediata pela personagem – e não é propriamente uma pessoa bem resolvida no geral. Um encontro no autocarro serve para agitar a sua vida, obrigando-o a tomar uma decisão, ou pior, a não tomar decisão qualquer. The Comedian segue Ed durante 80 minutos,e deixa-o num táxi, num diálogo final absolutamente devastante e sábio. Pelo meio, há espaço para cruzar vários temas – isolamento, homofobia, racismo, disfunções familiares – sem nunca nos parecerem enfiados na goela.
O cinema britânico já nos tinha dado em Weekend um belíssimo filme sobre a difícil coexistência do amor/felicidade com a realidade. The Comedian é em muitos aspetos o seu seguimento lógico e ainda mais realista, que pode simplesmente provar ser o suficiente para lhe partir o coração.

André Gonçalves

