Se existe algum cineasta que se sentirá verdadeiramente em casa em San Sebastián é Álex de la Iglesia, o realizador basco que desde meados dos anos 90 tem vindo a deixar a sua marca de humor, terror e suspense, atingindo um sucesso significativo em Espanha [especialmente com A Comunidade (2000), Balada triste de trompeta (2010) e La chispa de la vida (2011)], mas tímido além-fronteiras.
Após um início de carreira prometedor, com o filme que eventualmente se tornou de culto, O Dia da Besta (El Dia de La Bestia), Iglesia desenvolveu uma não muito secreta obsessão por alcançar novas audiências, no entanto filmes como Perdita Durango tiveram um alcance muito limitado, e nem Os crimes de Oxford conseguiu ter melhores resultados.
Mas Iglesias, como todos os Bascos, não desiste facilmente, e o seu mais recente trabalho, Las Brujas de Zugarramurdi, tem fulgor suficiente para ser capaz de quebrar a maldição que o persegue.
Esta é uma história repleta de ação e comédia sobre um grupo de bruxas e bandidos que lutam desesperadamente por melhores dias. José é um pai divorciado em constante conflito com a ex-mulher, com quem se bate pelo direito de ver o filho, Sergio. De forma a garantir as condições financeiras necessárias para o continuar a receber, desenvolve um plano audaz para roubar uma ourivesaria no centro de Madrid. Com esse fim, junta-se a Tony, um jovem que trabalha como promotor de uma discoteca chamada ESPERMA, constantemente obcecado por ser tão bem sucedido profissionalmente como a namorada. Quando o assalto acaba em conflito com as autoridades, vêm-se obrigados a raptar um taxista, Manuel, também ele dominado pelos caprichos das mulheres da sua vida. Revoltados pela constante guerra dos sexos, da qual são todos vítimas, e em fuga da polícia, vêm-se confrontados com uma longa dinastia de bruxas na fronteira francesa, que como todas as mulheres que lhes aparecem pelo caminho, querem subjuga-los ao seu poder.
A cena inicial é inquestionavelmente merecedora de referência e até certo ponto marco o passo para o resto do filme. Talvez a cena de ação mais audaz do cinema espanhol, é convincente e até empolgante, sempre com uma banda sonora poderosa que nos deixa ao rubro.
O sentido de humor de Álex de la Iglesia é durante grande parte do tempo hilariante, no entanto algo repetitivo, tornando-se eventualmente aborrecido e previsível, ou até mesmo escusado.
Embora eficaz na primeira metade, Las Brujas de Zugarramurdi perde-se uma pouco na sua exagerada ambição. Ao contrário de filmes como Shaun of the Dead, de Edgar Wright, cujo estilo Iglesia tenta reproduzir, estas bruxas falham redondamente em amedrontar seja quem for. Igualmente uma desilusão é o facto desta super produção ser demasiado limpa, perdendo muitas das qualidades que o realizador basco impingiu nas suas primeiras obras. A nível técnico é eficaz, e diga-se, que nestes filmes o exagero faz parte do charme, no entanto é impossível não pensar que tantos efeitos especiais existem simplesmente para fazer esquecer um guião que poderia e deveria ser muito mais interessante.
A insistência em estereótipos faz-nos rogar por um fim rápido que teima em não chegar, acabando por conspurcar toda a experiência de Brujas de Zugarramurdi, onde nem as grandes performances de Carmen Maura e principalmente Carolina Bang, que brilha no papel de uma jovem bruxa sedutora, conseguem salvar esta narrativa demasiada caótica.
Apesar de todas as suas falhas o filme não deixará de impressionar e divertir públicos à procura de gargalhadas fáceis e, até certo ponto, esse parece ser o objetivo principal de Álex de la Iglesia. Nesse sentido é difícil não reconhecer que acertou em cheio e, como tal, o filme está destinado a ser o seu grande sucesso de bilheteira.

Fernando Vasquez

