«Behind the Candelabra» (Por Detrás do Candelabro) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Quem julgava que Efeitos Secundários seria o último filme de Steven Soderbergh meta o dedo no ar. Pois bem, apesar dos anúncios não foi o thriller psicológico de contornos hitchockianos, protagonizado por Rooney Mara e Jude Law, a figurar-se como o derradeiro trabalho de tão versátil autor norte-americano, que após ter interagido com território farmacêutico decide “entranhar-se” no universo de Liberace.

Universo, esse, que segundo os principais estúdios norte-americanos, é “demasiado gay” para passar nas salas de cinemas, tendo a HBO comprado os seus direitos de exibição e transformando a longa metragem de Soderbergh num telefilme irreverente e biográfico como o canal de televisão por cabo norte-americano já nos habituou. Contudo, perante o potencial da obra, Soderbergh não teve mãos a medir, avançando mesmo para a corrida ao grande prémio de um dos mais conceituados (e mediáticos) festivais de cinema do Mundo: Cannes. Dada à sua qualidade, quer técnica, quer interpretativa, Por Detrás do Candelabro conseguiu ser distribuído e exibido em inúmeros países europeus, como Portugal.

A verdade é que esta nova obra de Soderbergh é de difícil digestão para os menos tolerantes em questões de orientação sexual. Porém, o autor revela-nos a sua mutabilidade neste biopic que se afasta claramente da esquematização habitual deste tipo de produções. A relação amorosa mas tensa entre o entertainer pianista, Liberace (um singular Michael Douglas) e o jovem e inseguro Scott Thorson (Matt Damon) é visto nos olhos de Soderbergh como uma variante de Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses) de Billy Wilder (Liberace tem mais de Norma Desmond do que aquilo que se imagina), onde ao invés de incutir o ambiente dignamente noir da obra de 1950, transforma Por Detrás do Candelabro num festim de excentricidades e de brilhantismo.

Trata-se de um partitura composta pelos seus desempenhos sólidos, Michael Douglas surpreende com a sua composição anti-ego (visto que o ator sempre havia afirmado a sua heterossexualidade como a sua figura central) e um confiante Matt Damon (mesmo que demasiado preso à sua pessoa), e pela diversidade artística do autor que emana uma realização nada rígida e moldável, uma história livre e corajosa. É um universo de obsessões, narcisismos e réplicas inerentes, o amor como escapatória a um mundo de glamour e extravagâncias. Por Detrás do Candelabro tem mais de poético que supostamente o “fetichismo gay” com o qual havia sido classificado.

O Melhor – Michael Douglas e a direção de Steven Soderbergh
O Pior – A discriminação de que o filme foi alvo.


Hugo Gomes

Últimas