O que tem faltado nos últimos anos em termos de notoriedade a Neil Jordan (difícil superar quer o “twist” de Jogo de Lágrimas, quer a noção de ter Kirsten Dunst a dar o seu primeiro beijo a Brad Pitt, bem sabemos!), tem-lhe sobrado em talento puro. Ainda pisando território místico após um subestimado/subvisto Ondine, Jordan decide recuperar a temática dos vampiros numa época em que o público já está bem farto deles.
Felizmente, Byzantium é puro Neil Jordan (para quem conhece o realizador, sabe do que falo), e é um filme capaz de subverter as regras clássicas do género, e de nos oferecer um “master class” de realização, onde cada plano parece ter sido estudado e desenhado ao pormenor, para tirar o melhor dos proveitos do diálogo invisível entre espectador e ação/personagens. Tal como Ondine, em que um Colin Farrell se apaixona “naturalmente” por uma ninfa que pesca nas suas redes, também aqui o sobrenatural se funde com a realidade contemporânea numa perspetiva que consegue fundir um romantismo onírico com bons alicerces narrativos e com pormenores muito interessantes a nível de argumento inclusivé.
Jordan sempre foi um excelente diretor de atores também: aqui, destaque para a dupla mãe e filha de Saoirse Ronan e Gemma Artenton (uma atriz que tinha estado demasiado tempo presa a filmes de género, e que pode, esperemos nós, progredir para outros trabalhos…).
Infelizmente, Byzantium reúne também muitas das condições de um filme de culto, só avaliado com a devida atenção muito tempo depois de ser lançado, e fugindo completamente do grande público. Basicamente, tem praticamente tudo o que a saga Twilight não tinha: subtileza e mordacidade em doses iguais, ausências de troncos nus, diálogos inteligentes, e ambiguidade moral.
Mas nem que seja preciso esperar 200 anos: tenho a certeza absoluta que o tempo lhe será favorável. Este é, ao lado de Let the Right One In, o filme de vampiros mais fascinante que vi na última década.
O melhor: A realização e o realismo fantástico de tudo isto, à semelhança de outras obras do autor.
O pior: Também à imagem de outras obras do autor, correr sério risco de vir a passar despercebido na sua vida comercial pelas salas de cinema.

André Gonçalves

